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Por André Buenos

A gruta 16 do complexo Yungang, no norte da China, abriga uma estátua esculpida no século 5 para receber os estrangeiros,especialmente os romanos, utilizando uma experiência iconográfica que incorporava elementos greco-romanos, indianos e chineses.

Construído no norte do país, o monumental complexo das cavernas-capela de Yungang  representou uma das primeiras tentativas de diálogo entre a iconografia budista indo-mediterrânica com o imaginário cultural chinês.

Foto: Marcin Białek

Yungang situa-se na atual cidade de Datong, a aproximadamente 350 quilômetros a noroeste de Pequim. Ali ficava a antiga cidade de Pingcheng, uma das capitais da dinastia Wei do Norte (398-493). As grutas de Yungang começaram a ser construídas durante o reinado de Wencheng (452 a 465). Hoje existem 20 grutas maiores subdivididas em 250 grutas menores, onde foram esculpidas cerca de 50 mil imagens budistas.

Foto: Marcin Białek

Traços interculturais

Com 13,5 metros de altura, a estátua central do Buda Akshobhya na Gruta 16 manifesta diversos aspectos de uma iconografia intercultural. Uma análise dessa imagem nos permite supor que ela foi construída para dialogar com as “nações do ocidente” –especificamente, os romanos – num momento em que tanto o império chinês e os budistas se firmavam no panorama mundial.

O conjunto possui certas particularidades que nos permitem propor que a presença daquele Buda, bem como suas vestimentas e atributos, possuem uma conexão iconográfica direta com o motivo do Buda em pé, existente em Gandhara (noroeste do subcontinente indiano) e inspirada no modelo de Augusto pater familias, culto difundido por todo o império romano.

A  Gruta 16 exibe um Buda apaziguador,receptivo, de características individuais marcadamente “ocidentalizadas”. Seus detalhes anatômicos, bem como a utilização da toga e dos gestos rituais (mudrás), nos fazem crer que há uma razoável inspiração, direta ou indireta, no modelo romano. Isso porque Akshobhya representaria aquele que recebe os estrangeiros em paz. Mas quais estrangeiros?

Visitantes dos mares ocidentais

Seria compreensível que a estátua estivesse voltada para o Oeste, em direção às estradas da Rota da Seda terrestre, de onde provinham muitos estrangeiros,principalmente indianos e povos da Ásia central. Contudo, a literatura histórica chinesa daquela época identifica uma constante chegada de estrangeiros pelo mar. A primeira embaixada romana teria aportado no sul da China em 166.

Nessa mesma época,um texto bastante difundido no império romano, o Périplo do mar Eritreu,tratava de navegações de longa distância ao Oriente. No livro Houhan shu, ficamos sabendo dessa embaixada “ocidental”, como também que Daqin (nome dado a Roma nos registros chineses) era também chamada de Haixiguo ou “País do mar ocidental”, e que um dos meios para se chegar até ele era, justamente, a navegação. Os textos que cobrem o período repetem, de modo constante, essas informações: o Weilü enumera inclusive as cidades ocidentais, e como chegar até o Egito pelo mar. Por fim, todos os textos históricos relativos ao período do século 4 e 5 relatam a chegada dos estrangeiros ocidentais nos portos chineses.

Isso significava,portanto, que a porta de entrada desses ocidentais era o mar – atributo do Buda Akshobhya, cujo elemento é o oceano. Assim, Akshobhya estaria voltado,exatamente, para o Leste – espaço do Mar chinês –, de onde viriam os forasteiros mediterrânicos.

Foto: Zhangzhugang

Um Buda receptivo aos estrangeiros

A escolha dos motivos empregados em sua confecção – a postura em pé, o gestual, o uso da toga, o rosto quadrado e os olhos grandes – teriam sido planejados para se comunicarem com esses ocidentais, propondo-lhes a paz e a receptividade garantidas por uma autoridade “imperial” e religiosa – o Buda.

O budismo chinês nos legou uma magnífica iconografia intercultural, resultante dessas diversas experiências em tentar comunicar os símbolos para as mais diversas culturas.Acreditamos, portanto, que a  Gruta 16 é apenas um desses exemplos: mas sua riqueza merece ser revelada, por mostrar um quadro da Antiguidade ainda pouco conhecido. Um mundo que ia de Roma à China,de trocas intensas, de férteis diálogos culturais, materiais e intelectuais.