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Por Felipe Zmoginski

Em momentos de crise, as transformações se aceleram. A máxima frequentemente usada por historiadores para explicar mudanças rápidas na ordem social vale também para a economia e o estilo de vida. Ao menos foi isso que demonstraram dezenas de empresas chinesas, neste início de 2020, quando foram desafiadas pela invisível ameaça de um novo vírus a colocar seu poderio tecnológico à prova e solucionar problemas do dia a dia de populações inteiras, que precisavam ir às compras, ao médico, estudar e trabalhar, mas não podiam sair de casa.

Esta não é a primeira vez, aliás, que epidemias deixam marcas que, ao final, modernizam ainda mais a sociedade chinesa. Muitos analistas de mercado, por exemplo, associam a crise da Sars, em 2003, à ascensão do e-commerce na China. “Na época, muitos cidadãos ainda tinham receio de comprar on-line, e não havia carteiras virtuais como Alipay e WeChat, mas como a Sars exigia confinamento, levou muitos consumidores a testar o comércio eletrônico”, conta Zoey Zhou, uma executiva de marketing que vive em Shenzhen. O “teste de e-commerce” foi um caminho sem volta. Hoje, a China é o maior mercado mundial de comércio eletrônico e concentra quase 50% de todos os pedidos digitais feitos no mundo.

Ao que tudo indica, a crise gerada pela Covid-19, em que pese o alto custo humano que causou à China, deixará o país com novos avanços tecnológicos, muito em função das soluções contactless (sem contato) que algumas das empresas inovadoras desenvolveram para uma sociedade em isolamento. Veja algumas áreas transformadas pela inovação em meio à pandemia de coronavírus.

Transportes e drones

A estrita regulação para o uso de drones em ações de delivery foi forçosamente flexibilizada em função do quadro emergencial. Empresas como a DJI, responsável por fabricar 70% de todos os drones vendidos no mundo, puderam usar seus aparelhos para fazer entregas de comida e medicação em diversas cidades chinesas. Alguns modelos podem carregar até 4 quilos de mercadorias, e seu uso foi considerado o “primeiro teste em massa” de drones para tal finalidade. A DJI também adaptou seus equipamentos para que suportassem alto-falantes e sensores de temperatura por raios infravermelhos. O método foi usado para enviar alertas à população e medir, remotamente, a temperatura corpórea de quem saía à rua, limitando a circulação de pessoas com febre – sintoma comum em pacientes infectados pela Covid-19.

A fabricante de drones agrícolas XAG, por sua vez, adaptou suas máquinas, que fazem aspersão aérea de fertilizantes e agrotóxicos, para que borrifassem soluções desinfetantes. Na prática, isso permitiu desinfetar grandes áreas públicas (como estações de trem e praças) sem expor os trabalhadores do setor de limpeza.

Em Zibo, província de Shandong, carros não tripulados assumiram a distribuição de alimentos para mercados e lojas de bairro. Os veículos têm autonomia de 150 km e transportam até 200 quilos de mantimentos. Sua solução é especialmente prática por permitir que uma compra siga até seu destino e seja retirada por meio de um código enviado ao seu smartphone. O código libera apenas o compartimento específico do comprador, permitindo ao carro autônomo fazer várias entregas em uma só viagem, com segurança e sem envolver o contato entre humanos.

Robôs e lojas autônomas

Desenvolvedores de soluções para o varejo contactless viveram um período altamente criativo ao longo da crise. Uma rede de cafés empregou robôs capazes de preparar bebidas como chás e cafés de forma autônoma e que substituíram totalmente os funcionários nas lanchonetes de hospitais de Wuhan. Uma solução prática e segura, que diminui as chances de contaminação de trabalhadores em instalações de saúde.

Lojas autônomas, como as implantadas pela JD, em que é possível entrar, comprar e pagar por reconhecimento facial, também apresentaram maior demanda. Segundo o próprio grupo, suas operações autônomas tiveram alta expressiva nas vendas no período de janeiro e fevereiro, mesmo restringindo o número de consumidores que podiam entrar, por vez, nas lojas. Além do volume de pessoas, controlava-se a temperatura corpórea de quem entrava, alertando autoridades sanitárias sobre a presença de alguém com febre no local.

Os postos de gasolina Sinopec, por exemplo, criaram sistemas para que pedidos à loja de conveniência fossem feitos on-line e, ao retirar, o comprador apenas abrisse o porta-malas do carro. Um braço mecânico era responsável por colocar a encomenda no veículo, com zero contato entre pessoas.

Adaptação fabril

Grandes fabricantes de veículos, como a BYD e a Wuling Automobile, alteraram parte de suas plantas fabris para, em vez de autopeças, produzir máscaras – item escasso no mercado chinês ao longo de fevereiro. A mesma decisão foi tomada pela Foxconn, integradora de iPhones, que usou suas instalações para produzir insumos essenciais à saúde pública, como máscaras e luvas. Essa adaptação permitiu que a estrutura industrial do país, a maior do mundo, se voltasse, emergencialmente, para a fabricação de itens para saúde, que se tornaram, de uma hora para outra, extremamente necessários.

Trabalho, estudo e diversão

As plataformas de colaboração permitem a execução de trabalhos em grupo, tanto no mesmo local, como em forma remota. As duas principais ferramentas chinesas desse tipo, o DingTalk da Alibaba e o Tencent Meetings, tiveram alta expressiva no número de usuários. No início de fevereiro, logo depois do feriado do Ano-Novo Chinês, o DingTalk saltou 40 pontos para se tornar o aplicativo grátis para iOS mais baixado da China e permaneceu na posição por várias semanas, acumulando mais de 1,1 bilhão de downloads. Já no Tencent Meetings, lançado em dezembro de 2019, o número de usuários ativos por dia ultrapassou a casa dos 10 milhões em dois meses.

O mercado de games on-line também teve excepcional crescimento no período. Jogos como Honor of Kings, com média de 50 milhões de usuários ativos por dia, saltaram para quase 100 milhões de gamers conectados diariamente. O produto, que gera receita com a venda de itens virtuais, faturou US$ 285 milhões na véspera do Ano-Novo Chinês de 2020. Para efeito de comparação, ao longo de todo o ano de 2019 o produto faturou U$ 1,6 bilhão, segundo dados publicados pela SuperData. Alta similar foi registrada em serviços de educação a distância. A plataforma VIPKid, dedicada a ensinar inglês a jovens chineses, por exemplo, anotou expansão de 1 milhão de assinantes em dois meses consecutivos deste ano.

Saúde e health techs

O setor de tecnologia que mais contribuiu para a superação da crise foi, por larga margem, o das health techs. Muitos planos de assistência médica baseados em soluções tech perceberam crescimento acelerado de sua base de assinantes. O serviço Ali Health, do grupo Alibaba, por exemplo, atendeu a mais de 30 milhões de consultas desde 24 de janeiro. A plataforma permite conversar com médicos por vídeo em um app para celular. A medida permitiu fazer triagem de pacientes e diminuir a superlotação de hospitais.

Com a ausência de kits de teste em larga escala, a China adotou um método de diagnóstico pela análise de tomografia dos pulmões, já que a Covid-19 deixa manchas características nesse órgão. Uma solução do Ali Health fazia a leitura automática de imagens, dando diagnósticos com 96% de precisão em 10 segundos, contra os 5 a 15 minutos necessários para que médicos chegassem à mesma conclusão.

O atendimento por telemedicina e a dispensação remota de medicamentos controlados também foram adotados por empresas como WeDoctor e PinAn Good Doctor. Essas medidas são apontadas pela Comissão Nacional de Saúde (equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil) como essenciais para diminuir a lotação de hospitais e afastar casos não urgentes do atendimento médico em momento crítico.

Modelos de consumo

A rápida adaptação chinesa à “economia de isolamento” só foi possível porque o país tem uma das sociedades mais digitalizadas do mundo e conta com infraestrutura e logística altamente desenvolvidas. Para se ter uma ideia, em 2019, o comércio eletrônico na China respondia por 25,8% das vendas de varejo, enquanto na Europa ou nos EUA, apenas 16% das vendas foram feitas por meio de plataformas on-line.

O abastecimento garantido pela logística eficiente foi essencial para tranquilizar a população quanto à possibilidade de ficar em casa. “Embora os medos e preocupações com a doença tenham sido grandes, os residentes rapidamente se conformaram com o confinamento e aproveitaram a tecnologia digital para se organizar e tentar manter uma rotina de trabalho e estudos, o que foi viável, dentro do possível, graças ao avanço tecnológico da China”, aponta Lin Chengyi, professor de Estratégia Digital do instituto francês INSEAD.

Segundo o pesquisador, tudo isso funcionou por dois fatores principais. Um deles foi o sistema de entrega de alimentos e compras em casa que conecta o consumidor com milhares de lojas e mercearias, físicas ou virtuais, uma rede que, nos últimos anos, cresceu diante da popularização do modelo conhecido entre os chineses como O2O, ou seja engajar consumidores em ações off-line com campanhas on-line. O segundo fator foi a operação para lidar com o problema da “última milha”, o trecho final da entrega. Em condomínios fechados, voluntários foram recrutados por grandes conglomerados de e-commerce para higienizar os pacotes e os colocar nas portas dos apartamentos. Isso evitava aglomerações e contato entre vizinhos.

À medida que a vida vai voltando ao normal, algumas atividades sem contato podem ser abandonadas, mas novos hábitos, como trabalhar, estudar ou consultar um médico pela internet e receber serviços de um robô podem se tornar uma nova rotina, tal como as compras on-line durante o período da Sars que se integraram na vida cotidiana, trazendo uma nova experiência de comodidade e um estilo de vida com mais qualidade.