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Por Christian Oliveira

Falar sobre a saúde íntima feminina infelizmente ainda é um tabu e gera constrangimento em qualquer parte do mundo. Talvez essa seja uma das causas da busca tardia por orientação e tratamento de doenças que, se tivessem sido identificadas precocemente, não causariam inúmeros impactos negativos na vida de tantas pessoas.

O conceito patriarcal de que “homens são superiores às mulheres” sempre esteve presente em inúmeras culturas. Após a fundação da República Popular, a célebre frase “as mulheres sustentam metade do céu” contribuiu para o avanço da proteção dos direitos delas na sociedade chinesa moderna. As mulheres passaram a se envolver intensamente no desenvolvimento social, ganharam oportunidades profissionais sem precedentes e, também, começaram a merecer um olhar mais cuidadoso e diferenciado em relação à sua saúde.

Aqui vamos falar da Ginecologia – especialidade médica que estuda, cuida e trata do aparelho reprodutor feminino –, na perspectiva da medicina tradicional chinesa (MTC).

Filosofia na saúde

A filosofia taoista teve um importante papel no desenvolvimento do pensamento médico e na forma de entender a mulher. O conceito de yin e yang, implícito no taoismo, preconiza a relação complementar, indissociável e equitativa entre o masculino e o feminino.

O símbolo yin/yang, conhecido como diagrama taiji, representa o dualismo presente na natureza, no qual as forças opostas precisam umas das outras para existirem. A lua não existe sem o sol, nem a noite sem o dia, a vida sem a morte, a mente sem o físico, o frio sem o calor. O equilíbrio só é atingido se houver essa dualidade na natureza e no corpo humano.

Para entender as doenças do aparelho reprodutor feminino temos que entender o significado de yin e suas possibilidades de desequilíbrio. O yin está ligado à suavidade, à sensibilidade, à intuição e à fertilidade. O yin é cíclico, assim como a fisiologia da mulher nas diversas fases de seus ciclos menstruais, que influenciam não só os órgãos reprodutores como sua energia e emoções. O útero é, fisicamente, um dos principais órgãos representativos do yin, pois manifesta a capacidade de gerar vida ao abrigo da luz e da agitação externa.

Na fisiologia feminina, predomina o xue (sangue), considerado yin, na masculina prevalece o qi (energia), classificado como yang. Naturalmente, não existe yin sem características yang, nem o contrário. Apesar da predominância, um aspecto existe dentro do outro. Portanto, para o bom funcionamento do corpo feminino nos diferentes estágios pelos quais ele passa (menstruação, gravidez, parto, lactação etc.), deve haver abundância e boa circulação de qi (energia) e de xue (sangue). Técnicas como a acupuntura e a fitoterapia são recursos clássicos para se alcançar o equilíbrio e promover saúde e bem-estar.

Sabe-se que vários órgãos e vísceras, bem como alguns canais extraordinários (canais energéticos segundo a MTC), também têm participação no funcionamento da saúde ginecológica. Daremos atenção a três órgãos, dada sua relevância: o rim, o baço e o fígado.

Os rins

O rim é um dos órgãos mais importantes na MTC, pois carrega o jing (nossa essência vital). Essa essência é preciosa, herdada dos pais, mas também é reabastecida pelos alimentos e pelas práticas que envolvam a respiração (como meditação e qi gong). A sobrecarga de trabalho, o estresse, a má alimentação e a atividade sexual excessiva enfraquecem essa essência, assim como o medo e a ansiedade, emoções associadas a esse órgão.

A energia proveniente dos rins, após o nascimento, controla o crescimento, o amadurecimento sexual, a fertilidade e o desenvolvimento de uma pessoa. Também oferece a base material para a geração de células reprodutivas em mulheres e homens. Quando está deficiente, pode aumentar as chances de uma mulher se tornar infértil, ter amenorreia (ausência de menstruação por três ou mais ciclos consecutivos) ou até mesmo provocar abortos.

O baço

O baço exerce papel importante na formação do sangue e da energia. Ele também atua no ciclo hormonal e mantém o sangue dentro dos vasos, impedindo seu extravasamento. Por esse motivo, auxilia a manutenção dos ciclos menstruais saudáveis.

Sua energia se manifesta no sistema gastrointestinal e é influenciada pelo que comemos. Açúcar e alimentos processados ou gordurosos, se consumidos em excesso, bloqueiam sua energia e alteram suas funções. Quando em desequilíbrio, pode provocar disfunções no sangue, como hemorragias, e desajustes no fluxo menstrual, além de comprometer a fertilidade.

O excesso de preocupações prejudica o funcionamento do baço e, na mulher, acaba por impactar sua saúde ginecológica.

O fígado

O fígado participa da regulação da circulação do sangue, influenciando o ciclo menstrual. Pelo fato de armazenar e regularizar o volume do sangue que abastece o útero, as irregularidades menstruais frequentemente são causadas por alguma disfunção nesse órgão. Se o sangue do fígado estiver deficiente, haverá ausência de ciclo menstrual. Mas se estiver em excesso, pode haver um ciclo menstrual mais prolongado e com fluxo aumentado.

Seu mau funcionamento pode acarretar tensão pré-menstrual, mastite (inflamação das glândulas mamárias), irregularidades menstruais, amenorreia, cistos, metrorragia (sangramento do útero fora da época apropriada do ciclo menstrual) e endometriose. A emoção associada ao sistema hepático é a raiva, que, em excesso, pode comprometer a saúde da mulher.

Muitas são as patologias e condições clínicas femininas. Falaremos sobre algumas delas a seguir.

Endometriose

De acordo com a medicina ocidental, a endometriose é uma afecção inflamatória provocada por células do endométrio (tecido que reveste o útero internamente) que, em vez de serem expelidas, migram no sentido oposto e caem nos ovários ou na cavidade abdominal. Apesar de casos assintomáticos, a endometriose normalmente gerar cólicas menstruais intensas e dor durante as relações sexuais.

Na MTC, a endometriose corresponde ao padrão de estagnação de sangue (padrão sindrômico geral), que pode ter diferentes causas – como a estagnação de qi, deficiência do qi dos rins, estagnação de sangue pelo calor e estagnação de sangue pelo frio. Ainda de acordo com esse olhar, alguns fatores que determinam o padrão de desarmonia nessa doença são: estresse emocional, ansiedade, exposição ao frio, ao calor e à umidade (especialmente durante a menstruação), alimentação inadequada e histórico de infecções genitais.

A acupuntura, a moxabustão e o uso de ervas chinesas se mostram boas estratégias para minimizar os sintomas e melhorar o quadro. As dores causadas pela endometriose ocorrem porque os músculos da região abdominal se contraem. Para aliviar essa tensão, as compressas quentes são bem-vindas e melhoram a circulação do qi na região. No caso de náuseas, sintoma também comum nesse quadro, o chá de gengibre pode ser um aliado, dada sua função anti-inflamatória e digestiva.

Infertilidade feminina

Infertilidade é a dificuldade de um casal obter gravidez no período de um ano, tendo relações sexuais sem uso de nenhuma forma de anticoncepção. Logo, pode haver uma dificuldade do homem, da mulher ou de ambos. As causas de infertilidade ligadas ao fator feminino podem ser divididas em quatro grupos: causas ovarianas e ovulares (como síndrome dos ovários policísticos ou insuficiência ovariana prematura); causas tubárias e do canal endocervical (como obstrução tubária, geralmente provocada pela endometriose); causas ligadas à fertilização (como questões relacionadas ao óvulo) e causas ligadas à implantação do embrião (como falhas hormonais que produzam um endométrio inadequado).

O estresse tem o potencial de causar infertilidade transitória em mulheres, o que evidencia que os fatores psicológicos e externos podem comprometer o sucesso da concepção. Da mesma forma, questões como o medo e a frustração por não conseguir engravidar, bem como as pressões sociais e familiares, também podem impactar negativamente a fertilização.

Para a MTC, a infertilidade feminina pode ser decorrente da exaustão do qi dos rins, da insuficiência de sangue, da estagnação do qi do fígado, da obstrução energética por umidade e da retenção de sangue estagnado. Muitos alimentos e ervas chinesas podem ajudar nesses quadros, mas toda e qualquer conduta deve ser recomendada por um terapeuta – já que as causas são tão diversas – e o diagnóstico, feito apenas após exame clínico.

Mudanças de hábitos, acupuntura e moxabustão são estratégias que também precisam ser traçadas especificamente para cada paciente e para cada momento: antes, durante e após a gestação. A título de curiosidade, há um importante ponto de acupuntura que geralmente é estimulado por um terapeuta para preparar a paciente para a gestação. Trata-se do ponto VG4 (Ming Men), também conhecido como “Porta da Vida”.

Menopausa

A fase da menopausa corresponde ao período de 12 meses durante o qual ocorre a cessação das menstruações. É um fenômeno fisiológico decorrente do esgotamento dos folículos ovarianos que acontece para todas as mulheres de meia-idade, seguido da queda progressiva da secreção de estrogênio, culminando com a interrupção definitiva dos ciclos menstruais (menopausa) e o surgimento de sintomas característicos.

Para a MTC, a menopausa é uma consequência natural e fisiológica do declínio da energia do rim (geralmente deficiência de yin ou de qi). Dois sintomas comuns desse quadro são as ondas de calor e o suor noturno. Apenas um profissional qualificado conseguirá identificar qual é o quadro de desarmonia predominante e, assim, propor a melhor conduta terapêutica para aliviar os desconfortos típicos dessa fase.

O chá Dong Quai, pronúncia dialetal de 当归 dāng guī (Angelica sinensis), conhecido como “ginseng feminino” ou “rainha das ervas”, pode ser um importante coadjuvante na minimização dos sintomas da menopausa.

Outubro rosa

Outubro é o mês marcado mundialmente pelas ações afirmativas relacionadas à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer de mama, doença que acomete ambos os gêneros, mas é mais prevalente entre as mulheres (cerca de 99%). As técnicas da MTC podem e devem ser usadas em conjunto com as demais técnicas modernas da medicina nas diferentes fases do cuidado à paciente – e mesmo na prevenção da doença. Acupuntura, dietoterapia e fitoterapia chinesa podem também diminuir os efeitos colaterais causados pelos tratamentos modernos convencionais, proporcionando melhor qualidade de vida às pacientes.