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Por Sergio Maduro

As imagens da escada feita de tocos lenhosos que dá acesso à vila de Atule’er, no alto de um penhasco de 800 metros no sudoeste da China, correram o mundo. Nada parecia capaz de galgar aquele despenhadeiro, mas a pobreza conseguiu.

Crianças Miao em Guizhou

Ela chegou tomando crianças e adultos da minoria étnica yi, em geral agricultores que viviam pendurados naquele rincão do mundo, passando as piores dificuldades. Por isso, a vila tornou-se uma espécie de símbolo das políticas de alívio da pobreza na China. A primeira medida emergencial foi a substituição da escada de madeira por uma de metal. Depois, a maioria dos habitantes foi removida para apartamentos mobiliados na vizinha cidade de Zhaojue, onde continuaram com atividades ligadas à agricultura ou tiveram facilitadas as condições de trabalho em empresas incentivadas a se estabelecer no local.

Quem ainda assim não conseguiu se firmar foi de alguma forma requalificado para uma nova atividade, na maioria das vezes ligada ao turismo. Isso porque as poucas dezenas que permaneceram em Atule’er assistiram à transformação do lugar em ponto turístico, onde as belezas das montanhas e o isolamento podem hoje atrair o visitante e deixar um pouco para trás o que foi um dos sítios mais pobres do mundo.

Na luta para diminuir a pobreza nas partes mais recônditas da nação, não é difícil encontrar numa casa qualquer, isolada nas montanhas pobres do país, um cronograma contendo recomendações e metas para melhorar de vida. Com frequência, cotejando o cronograma, agentes do governo vão verificar os progressos e falhas, orientam as pessoas e, ao mesmo tempo, alimentam um detalhado banco de dados das famílias pobres, a fim de implementar ações individualizadas e rastrear os resultados.

Onde mora a pobreza

O longo tempo que a dignidade levou para galgar os degraus daquela vila de 200 anos na província de Sichuan contrasta com a opulência e o luxo que subiram rapidamente de elevador ao topo dos mais modernos edifícios de Pequim e Xangai.

Essa discrepância tem a ver com a acelerada urbanização da China nos últimos anos. Ela fez enormes contingentes humanos migrarem do campo para as grandes cidades, que, por sua vez, não conseguiram absorver os novos trabalhadores. O resultado foi um inesperado desequilíbrio de condição econômica na nação com o segundo maior PIB do mundo.

Por outro lado, regiões menos integradas ficaram à margem do avanço econômico. Estudos do governo apontaram que a pobreza tem rosto e endereço: em geral, está localizada entre as etnias minoritárias que vivem em vilarejos encravados numa geografia acidentada no noroeste e sudoeste, sujeitos a desastres naturais e com difícil acesso às mais prosaicas facilidades urbanas.

Promover a integração das etnias tornou-se, portanto, uma questão-chave para o alívio da pobreza nessas localidades. Mais que ensinar o mandarim para dar uma língua comum ao imenso país de maioria han, a política social busca fazer dialogarem as minorias étnicas – e suas respectivas línguas e culturas – com a língua e a cultura predominantes do país. Numa ponta, ensina-se o mandarim, é certo, mas, na outra, prestigia-se a identidade das minorias.

Viagem à China profunda

Fazer turismo para visitar essa China quase inacessível aos próprios chineses e antes ilhada pela miséria e pela geografia foi uma das propostas do governo. As estratégias são as mesmas usadas em Atule’er. Pesados investimentos e incentivos transformam regiões empobrecidas em lugares de interesse turístico rural ou ecológico. Essa nova vocação tira proveito do isolamento que preservou uma natureza algo intocada e uma cultura com boa dose de exotismo e originalidade artística.

Na província de Guizhou, por exemplo, foi o turismo que pôde mostrar aos chineses, turistas emergentes graças ao enriquecimento da classe média, as palafitas, as cabeleiras adornadas e os trajes vistosos do povo miao, convertendo-se, assim, num dos instrumentos de alívio da pobreza. Danzhai, um dos municípios da província, transformou-se em cidade turística com arquitetura miao, mão-de-obra miao, lojas de artesanato e trajes miao, restaurantes de culinária miao e apresentações de artes miao, graças ao investimento bilionário. Quem ainda não estiver satisfeito pode entrar numa das “casas de experiência”, onde será possível experimentar atividades como fabricar gaiolas ou produzir artesanato típico, na companhia de artesãos locais.

Nas regiões de solo infértil ou cansado, mas com interesse ambiental, o foco que antes estava na agricultura foi direcionado para o ecoturismo, aumentando os empregos e o afluxo de empresários dispostos a investir em infraestrutura ou de turistas simplesmente interessados em gastar dinheiro para conhecer uma região nova do país.

Outra providência importante é o reassentamento de populações rurais isoladas. Elas foram transferidas para cidades, requalificadas para exercer atividades urbanas e se adaptar à vida em apartamentos, enquanto recebem do governo móveis básicos, linhas facilitadas de microcrédito e uma renda básica que varia de região para região. Por fim, água, esgoto e energia limpa colaboraram para que as pessoas retiradas das montanhas se fixassem em cidades com maior qualidade de vida.

O caminho chinês

A China é o que se pode chamar um “case de sucesso” quando o assunto é alívio da pobreza. Há mais de 40 anos, desde o início das reformas econômicas destinadas a uma nova inserção no cenário global, o “País do Meio” vem impressionando o mundo. Em números ratificados pelo Banco Mundial, cerca de 750 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza nas últimas décadas. Somente entre 2012 e 2018, mais de 80 milhões de pessoas deixaram de ser pobres, o que faz da China protagonista no cenário internacional ao ter conseguido, nos últimos anos, reduzir em 70% a miséria no planeta.

O país foi tão bem-sucedido que, estimulado por organismos internacionais, também exporta suas experiências nesse assunto. Em algumas regiões da África, a China desenvolveu programas de cooperação e intercâmbio para dialogar sobre a metodologia das políticas de alívio da pobreza. Além disso, mantém uma Plataforma Global de Redução da Pobreza e Crescimento Inclusivo, onde compartilha as práticas aplicadas no país. O combate aos fatores geradores da pobreza é sistemático. O governo identificou onde se localizavam as pessoas em situação de pobreza extrema, ou seja, as que sobrevivem com menos de 1 dólar ao dia, segundo parâmetros da ONU, ou com menos de 1,90 dólar ao dia, segundo parâmetros do Banco Mundial. Essa radiografia revelou que os mais pobres estavam em áreas rurais distantes, pertenciam a minorias étnicas e a grupos minoritários vulneráveis. Foram, assim, criadas políticas específicas para esses grupos.

Também existe um cadastro nacional da população necessitada, através do qual os dados de cada pessoa, de cada família e de cada vila e região são coletados para orientar as políticas públicas nas áreas de educação, previdência e assistência social, estratégias de instalação de indústrias, realocação de pessoas e aproveitamento econômico. O incremento do sistema de transportes em áreas pobres também possibilitou maior mobilidade e segurança, permitindo que profissionais e serviços transitem com facilidade por essas regiões.

Outro fator a contribuir para a erradicação da pobreza extrema é o investimento em educação – que, consequentemente, mudou a prática de abandonar os estudos para trabalhar. A educação hoje é uma prioridade e é gratuita até que o adolescente complete 15 anos. Os professores são prestigiados e, nas áreas mais carentes, as dependências escolares são adaptadas de modo que as crianças se sintam incentivadas a passar mais tempo ali.

Vilarejo Miao em Guizhou

Suportes financeiros

Vinculada ao governo central, a Fundação para Alívio da Pobreza da China é encarregada de executar ações da sociedade civil para erradicar a pobreza extrema até o final de 2020. Até o final de 2019, arrecadou o equivalente a US$ 971 milhões em doações de dinheiro e materiais. Mais de 40 milhões de pessoas foram beneficiadas. É possível que a epidemia da Covid-19 atrapalhe um pouco os planos, já que contribuiu de forma inédita para encolher o PIB chinês em 6,8% no primeiro trimestre, mas a China não desistiu de cumprir a meta.

A pobreza nas malhas da rede

Um dos motores da moderna economia chinesa é o comércio eletrônico, e justamente ele – aliado à indústria do entretenimento numa inusitada parceria com o governo – tem ajudado nos processos de erradicação da pobreza extrema. As empresas do setor levam internet rápida a lugares distantes, constroem complexos turísticos e centros de comércio e entretenimento em regiões que funcionam como polos geradores de empregos e de turismo para localidades de difícil acesso.