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Por Janaina Rossi

Por volta de julho e agosto, China, países vizinhos e suas respectivas comunidades mundo afora celebram o Qixi, que poderia ser definido como o “Dia dos Namorados chinês”. Só que, a bem da verdade, é muito mais que isso. Quem quiser explicar o que é esse festival, que vem sendo comemorado há uns bons vinte séculos, vai ter que falar um pouco de mitologia chinesa, história dos costumes e astronomia. E nem vai precisar falar de amor, porque, de um jeito ou de outro, tudo gira em torno dele e do anseio que sempre tivemos – e continuamos tendo – de encontrar alguém com quem formar um laço firme e duradouro.

O significado literal de 七夕 Qīxī é “noite dos setes”, por ser festejado no sétimo dia do sétimo mês lunar, que, no calendário gregoriano, cai em agosto. A festa também é chamada de 乞巧节 Qǐqiǎo jié, algo como “festival para pedir habilidades”, e já veremos por quê. Hoje está cada vez mais relacionada à celebração do amor entre casais e à procura pela metade faltante da laranja. Para se ter uma ideia dessa associação moderna ao matrimônio, no ano passado a prefeitura da cidade de Fuzhou, capital da província de Fujian, decidiu não emitir nenhum divórcio durante o Qixi. Os “setes” chineses, tidos como uma data de sorte para a realização do casamento, são a ocasião perfeita para que pares perfeitos se curvem ao céu, o que equivale mais ou menos ao nosso “sim” diante do padre. Já para as solteiras, é tempo de pedir por um bom marido, numa mistura de Dia dos Namorados com Santo Antônio. Aliás, tudo indica que o equivalente brasileiro do Valentine’s Day é comemorado em 12 de junho por ser a véspera do dia do santo casamenteiro.

Porém, na maior parte dos seus mais de 2 mil anos de existência, o festival era algo muito diferente, mas é fácil entender como as comemorações acabaram ganhando as feições atuais. Há uma lenda ligada à origem do Qixi capaz de fazer uma pedra suspirar.

A Tecelã e o Vaqueiro

O vaqueiro 牛郎 Niúláng (ou 牵牛 Qiānniú) e a tecelã 织女 Zhīnǚ estavam apaixonados e decidiram viver juntos. Ela, porém, era uma divindade celeste, sétima filha de 王母娘娘  Wángmǔ Niángniang, Rainha Mãe do Céu, que não aceitou aquele reles mortal como genro. Separou então os dois, fazendo Niulang reencarnar e a insolente Zhinü tecer nuvens pela Eternidade.

Anos depois, Wangmu Niangniang permitiu que as filhas fossem dar um passeio pela Terra. As garotas refrescavam-se num lago quando, inexplicavelmente, um vaqueiro surgiu e roubou o vestido de uma delas. Por estranho que pareça, ele o fizera a mando de seu boi falante, espécie de anjo da guarda em forma bovina. Assustadas, seis fugiram para o céu, mas Zhinü reconheceu no moço seu amor reencarnado, e os dois de novo fugiram. Ao descobrir a união, a Rainha Mãe foi atrás da filha, proibindo-a de rever o marido. Mas o boi encantado veio de novo com um conselho exótico a Niulang, pedindo que o dono o matasse e de seu couro fizesse um par de sapatos mágicos para perseguir a Rainha Mãe até os confins do universo. E foi o que ele fez. Em vez, porém, de devolver Zhinü, a Rainha Mãe transformou os amantes em estrelas e riscou o céu com o grampo de seu cabelo, formando assim um imenso rio a separar os dois.

Toda a Criação lamenta o destino do casal, e há quem diga que as gotas de chuva são as lágrimas do obstinado vaqueiro e sua amada tecelã. Uma vez por ano, pássaros de todo o mundo formam uma ponte sobre o rio, para que Zhinü e Niulang possam reunir-se de novo. Esse reencontro se dá no sétimo dia do sétimo mês lunar. Zhinü é hoje a estrela branca azulada conhecida no Ocidente por Vega, e seu infeliz esposo é a estrela Altair. O rio entre eles é a Via Láctea, e a “ponte” é criada por Deneb, estrela com a qual formam o Triângulo de Verão. Vega e Altair, já com os nomes de Estrela Tecelã e Estrela Vaqueiro, são citadas no 诗经 Shījīng, o Clássico da Poesia – compilado entre os séculos XI e VII a.C. –, que também descreve o seu movimento pelo céu.

O dia das garotas

Além dos elementos cosmogônicos, é fácil perceber na lenda referências à vida das mulheres chinesas de antigamente. Por séculos, o Qixi era uma ocasião para as moças celebrarem a iminência do matrimônio e exibirem suas habilidades e prendas domésticas – inclusive em competições. Assim, mostravam-se aptas a tornarem-se boas esposas e mães.

Especialmente destinado às garotas, esse era um dia de confraternização entre solteiras e recém-casadas. Durante as festividades, elas participavam de cerimônias, faziam oferendas e rezavam nos templos de Zhinü, a quem se uniam por meio de laços rituais. Pediam também que a deusa lhes conferisse “mãos de fada” (as tais “habilidades” de que falamos no início), assegurando-lhes destreza com as agulhas, talento culinário e outros dotes tipicamente femininos, além de sabedoria e beleza.

Casais jovens também rendiam homenagens à divindade tecelã e rezavam a Zhinü e Niulang. O foco do Qixi, afinal, estava originalmente direcionado a aspirações a um matrimônio feliz e duradouro, não ao amor pré-marital e, portanto, a namorados. Há quem critique a “degeneração” da festividade tradicional, mas, gostemos ou não, as tradições se transformam. Não fosse assim, ainda adoraríamos o Sol em 25 de dezembro, o Halloween seria conduzido por sacerdotes druidas e a ressurreição de Jesus não seria pretexto para comer chocolate como se não houvesse amanhã. Por outro lado, é compreensível que testemunhas de tais mudanças lamentem que o significado original de uma tradição vá-se empalidecendo.

É muito amor…

O festival Qixi não é o único dia dos namorados comemorado atualmente pelos chineses. Além da “noite dos setes”, o quatorze de fevereiro já está incorporado ao calendário festivo-amoroso. Há ainda duas outras datas no ano que servem de pretexto para um jantar especial, presentes, flores e chocolates. Pode ser muito amor, mas também é muito comércio.

A história do Vaqueiro e sua Tecelã, porém, ensina que no fundo é o amor que importa e, sendo assim, tem é que ser celebrado. Não precisa de um dia específico, mas se existe algum momento que parece perfeito para isso, esse momento é o sétimo dia do sétimo mês do calendário lunar. Alicerçado numa lenda tão bonita, tão plena de simbolismos e inscrita no céu para sempre pelas estrelas, companheiras eternas dos que amam, o Qixi merece o título de dia de todos os amantes do mundo.