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Por Janaína Camara da Silveira

Poucas marcas arquitetônicas são tão emblemáticas em Xangai quanto os 弄堂 lòngtáng, as ruelas em que casas de dois ou três andares serpenteiam lado a lado – e frente a frente – por caminhos que mais parecem labirintos. Para entrar em um longtang só há um portão, de ferro. Lá dentro, uma imensidão de vielazinhas por onde só se passa a pé ou, no máximo, de bicicleta ou motocicleta, à esquerda ou à direita.

São heranças da primeira leva de migrantes, atraídos ainda nos anos 1800 pelo entreposto portuário que fervilhava em negócios com o Ocidente. No início, suas casas eram feitas em madeira, e muitos vieram abaixo em incêndios, comuns à época. Daí surgiram as paredes tradicionais de tijolos à vista dos longtang de Xangai, cujas residências são chamadas 石库门 shíkùmén. E são estas que ainda resistem ao tempo.

A arquitetura é mais uma das misturas feitas na China ao gosto ocidental, isso porque os longtang surgiram já no período das concessões estrangeiras, quando Xangai tinha áreas demarcadas para diferentes nacionalidades. Aos chineses era permitido viver apenas em alguns locais e, assim, desenvolvedores imobiliários – muitos dos quais estrangeiros – passaram a construir moradias para as famílias do país que chegavam a Xangai, a maioria com uma boa renda. Foi então que começaram a aparecer as casas com intensa luz natural, uma área externa conforme a tradição dos jardins chineses e, no terceiro andar, os terraços à inglesa. Um charme só visto por ali.

A vida nos longtang, alheia ao movimento de seu entorno, tinha um ritmo agitado – da conversa entre os vizinhos, da comida servida em mesas na rua e do vaivém dos moradores, pois muitos compartilhavam o mesmo endereço. De início, as casas abrigavam apenas uma família, mas ao longo do tempo passaram a ser sublocadas, especialmente o último andar, chamado de 亭子间 tíngzijiān. Tratava-se de um cômodo quase independente dos demais, só que pequeno e com uma fama nada acolhedora: quente demais no verão, frio demais no inverno.

De fora, tudo igual, casas em sequência, fáceis de confundir. Dentro, universos particulares que emprestavam identidades únicas e diversas aos moradores. A escritora Eileen Chang foi uma intérprete desse mundo. Captou como poucos a essência feminina de Xangai, inclusive a das moradoras do lugar – como ela própria, cujo endereço mais conhecido é o do prédio em art déco na Rua Changde. Também viveu em um longtang por certo período. Tanto que é reconhecida também, ao lado Lu Xun, Mao Dun e Ding Ling e outros, pelo movimento literário que se convencionou chamar Tingzijian. O movimento tem esse nome em alusão às peças que eram alugadas, residência de todos aqueles escritores antes de alcançarem a fama.

Entre 1850 e 1940, os longtang chegaram a abrigar 60% da população. Hoje, restam poucos. Um deles, bastante comercial mas ainda assim interessante, é o 田子坊 Tianzi Fang, onde se podem encontrar marcas locais de roupas e acessórios, cafés e restaurantes. Já o 新天地 Xintiandi é outra área comercial que faz referência aos longtang e às casas locais, ou shikumen. Mas, diferente de Tianzifang, cujos empreendedores adotaram o espaço original, Xintiandi foi construído. As ruas largas dão a impressão de um ambiente bem mais amplo do que de fato se vê nas vielas históricas. Próximo à Rua Huaihai Zhong, o 渔阳里 Yuyang Li traz uma atmosfera que lembra como os longtang começaram: prioritariamente residenciais.

Escolha o que mais lhe convém, mas não perca. Afinal, só em Xangai para conhecer esse charme em forma de casa.