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Por Janaína Camara da Silveira

Metrópole que se reinterpreta década após década, Xangai vem consolidando o título de meca financeira da China. E também a reputação de centro importante da indústria criativa asiática, endereço de executivos descolados, polo de atração de arte contemporânea e local de celebrações à arquitetura. Tudo isso regado a muita música, tendo o jazz como tom central. Conhecê-la é entregar-se a um passeio de puro estímulo aos sentidos.

Fala-se muito que essa é a cidade mais ocidental da China. O clichê tem sentido, e a história do lugar ajuda a entender o porquê. Ainda no século XIX – graças ao porto que lhe emprestava o status de importante entreposto comercial –, Xangai foi dividida, num regime de concessões a nações estrangeiras, após acordos alinhavados na Primeira Guerra do Ópio. Essa disputa envolveu a China imperial e a Grã-Bretanha e, com a derrota dos donos da casa, acabou por permitir a delimitação de espaços em solo chinês sob o mando de outros países, caso do Reino Unido, mas também de Estados Unidos e França. Xangai não apenas viveu essa realidade como se tornou, graças à mistura de culturas que passou a abrigar, um dos lugares artística e intelectualmente mais atrativos do mundo. Chineses e ocidentais moldavam naquele momento a fama de um clima ocidentalizado que perdura até hoje. Ou de um caldeirão multicultural que, acostumado a fusões e preconceitos, criou uma identidade que se traduz em tudo aquilo que é cosmopolita e, ainda assim, essencialmente chinês.

A cidade é única, e assim deve ser sentida. Para quem não escapa a uma comparação, vale lembrar que foi chamada de “Paris do Oriente” nas décadas de 1920 e 1930, com os salões de baile e os clubes de jazz, o cinema que florescia por ali e os jogos políticos que se desenhavam nos gabinetes e também na clandestinidade. O Partido Comunista da China teve sua primeira reunião em Xangai, em 1921, da qual participou, inclusive, o líder mais icônico do país, Mao Zedong. Mas seria preciso que quase três décadas se passassem para que o Timoneiro chegasse ao poder central, em 1949. O sistema de concessões, no entanto, caiu um pouco antes, em 1942, quando o país vivia a traumática invasão japonesa, contenda com os vizinhos que implicou perda temporária de territórios e culminou em uma guerra civil. Mergulhada numa realidade cruel, a cidade viu seu charme esmaecer por um tempo, mas o encanto permaneceu. Recuperadas as forças, um polimento e a roupagem pós-moderna devolveram todo o requinte a Xangai. Hoje, já não se fala mais em “Paris do Oriente”, mas da “Nova Iorque oriental”. A alcunha é, em parte, verdadeira, mas também há um pouco de lenda. Diga-se de novo: Xangai tem uma identidade particular. Como os chineses dizem, por ali sopra um vento ocidental; e a terra, o tempero, o jeito, a identidade, são deliciosamente locais.

Mas, enfim, depois de entender um pouco mais sobre a supermetrópole, por onde começar? O Bund pode ser um bom ponto de partida para curtir a cidade. Na margem oeste do Rio Huangpu (conhecida como Puxi), sente-se o impacto de tanta história – a passada e a que está acontecendo neste exato momento. Em meio a toda essa informação, parece haver algo familiar. Podem ser as construções, pode ser a mistura do novo e do antigo, ambos tão presentes. Caminhando pela calçada vemos, perfilados à beira do rio, os antigos prédios dos tempos das concessões, joias arquitetônicas que fluem do neoclássico inglês à estética lúdica e geométrica do art déco, atestando a influência dos forasteiros de outrora. Já foram consulados, hospitais, bancos, casas comerciais e outros aparatos dos governos estrangeiros, mas hoje estão abertos a moradores e turistas, com restaurantes, casas noturnas, hotéis e lojas de luxo. É uma delícia passear por esse emaranhado de referências, entre os visitantes que chegam às dezenas, centenas e até milhares. A pausa para uma água ou uma taça de vinho é irresistível: a gente recarrega as energias e ainda aproveita um pouco mais da região.

Ao atravessar a Avenida Zhongshan, um imenso calçadão convida a tirar fotos com a margem oposta servindo de pano de fundo: os arranha-céus que emprestam a Xangai o título de cidade “à la Jetsons” estão do outro lado, na parte chamada Pudong, ou margem leste. Ali, uma antiga vila pacata e industrial deu lugar, a partir dos anos 1990, a prédios opulentos, que a cada ano redesenham a silhueta nas alturas. O segundo edifício mais alto do mundo, o Shanghai Tower, com 632 metros, está ali – só perde para os 828 metros do Burj Khalifa, em Dubai. Para quem gosta, vale visitar esses prédios e ver, de um dos vários decks de observação disponíveis, a cidade lá de cima. A Torre da Pérola Oriental e o Shanghai World Financial Center também têm os seus mirantes, o que é maravilhoso. Xangai ao longe, num ângulo diferente, lá embaixo, merece cliques sem fim.

Mas essa metrópole chinesa não é só opulência e superlativos. É contemplação e fruição também. Nada melhor do que a cena vibrante das artes plásticas para confirmar isso. O distrito M50 (abreviação do endereço Rua Moganshan 50) é uma reunião de ateliês e obras a céu aberto, imprescindíveis quando se visita a cidade. Antigos galpões industriais, por seus aluguéis baratos de há poucos anos, acabaram por atrair os criativos da cena local, num movimento que hoje ganha cada vez mais relevância no mundo. Os artistas chineses estão entre os mais aclamados (e muitos, também entre os mais bem pagos) das artes plásticas internacionais.

Outro endereço que já virou referência é o Power Station of Art, antiga usina de energia que hospeda nos anos pares a Bienal de Xangai. Tornou-se mundialmente conhecido em 2013, por causa da exibição gigantesca do pai da Pop Art, Andy Warhol. Inaugurado em 2010, quando a cidade recebeu a Exposição Mundial, o lugar é um dos maiores espaços disponíveis para exposições e instalações. Uma vez por perto, vale conferir nos websites e aplicativos – vários deles com versões em inglês – as atrações em cartaz.

Movimentos como o M50 e o Power Station of Art são a expressão de uma cena que se consolida e ganha novas facetas. E podem ser só a porta de entrada para quem quer explorar melhor a arte local ou global que busca abrigo em Xangai. Curiosos e fãs têm ainda outros endereços interessantes para conhecer. Caso da Art+ Shanghai Gallery, da MD Gallery e do Yuz Museum – antigo hangar que oferece 9 mil metros quadrados de espaço para exibições num cantinho que cada vez mais disputa a atenção com o M50. O melhor é ter tempo para os dois. Mas tempo mesmo: para curtir, desapegar da velocidade da vida urbana e tomar um café.

Quem estiver carente da China tradicional também tem em Xangai a chance de visitar esse capítulo da história chinesa, especialmente no Jardim Yu Yuan, construído em 1559. Nos dois hectares da propriedade murada, pode-se conhecer o ideal de tranquilidade de então, com lagos e jardins compondo a paisagem junto às pequenas edificações para lazer e devoção, ainda preservadas. Apesar da aura zen, vale alertar que o passeio é um exercício de jogo de cintura no meio de uma horda de visitantes, tanto dentro do jardim quanto no entorno, onde há réplicas de casas comerciais da dinastia Ming. Cada uma delas tenta atrair a multidão de turistas da região com comida e, principalmente, uma infinidade de suvenires.

Uma ótima notícia: em Xangai é muito fácil locomover-se, pois a rede do metrô atende os principais pontos turísticos. São 14 linhas (mais de 500 quilômetros de trilhos), que chegam a todos os bairros e interligam os dois aeroportos – e os preços variam conforme a distância percorrida. Para quem não entende nada de mandarim, sem pânico: a sinalização e os avisos do metrô estão disponíveis também em inglês, nas letrinhas romanas que bem conhecemos.

Depois de tanto estímulo visual, é hora de comer bem. Um dos petiscos favoritos de Xangai é o 小笼包 xiǎolóng bāo, uma trouxinha de massa inexplicavelmente fina cozida no vapor e que, além do recheio, comporta uma espécie de sopa. Prato típico local, é feito não só para matar a fome: comer uma porção de xiaolong bao é uma experiência divina. Há uma rede bacana espalhada pela cidade, com menu em inglês e um recheio de caranguejo pra lá de especial: o Din Tai Fung. Ao ver uma das lojas, não hesite. É satisfação garantidíssima. Mas, regra geral, qualquer casa com xiaolong bao vale a pena.

Se ainda sobrar energia, Xangai tem uma noite pródiga. Na região conhecida como Concessão Francesa, a cena é mais descolada, e a música vai da salsa – febre nas grandes cidades chinesas – ao jazz e ao eletrônico nas casas noturnas. Mas é no Bund que os ambientes são mais requintados, atraindo moradores e turistas. Um retorno ao glamour dos anos 1930 tem como roteiro imperdível a visita ao Long Bar, no hotel Waldorf Astoria, recriação do antigo clube inglês que funcionava ali e, à época, era exclusivo para homens. A carta de drinks é um belo atrativo, mas o melhor de tudo é ouvir as bandas de jazz que se revezam no pequeno palco. O VUE, é outra tentação. Esse bar nas alturas oferece uma vista privilegiada. Acaba sendo uma forte alternativa para o bate-papo com os amigos, pois é um deslumbre ver Xangai do alto, com as luzes e os arranha-céus de Pudong contrastando com o charme clássico de Puxi.

O NOME DA CIDADE

上海 Shanghai / Xangai
O nome da cidade em chinês é composto pelas palavras shàng (“sobre”) e hǎi (“mar”); em muitos países adota-se a transcrição “Shanghai”, mas no Brasil usamos a forma aportuguesada Xangai.