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Por André Ribeiro

Em 20 de maio de 1943, Mário de Andrade escreve uma crônica para a Folha da Manhã intitulada “O maior músico”, e escolhe o seu compositor preferido, um jovem chinês, morto muito cedo, que fizera ressoar sua música para além das fronteiras da China. O jovem a quem se refere chamava-se Nie Er, ou Nie Shouxin, o compositor da Marcha dos voluntários, hino nacional da República Popular da China. Partindo de uma longa digressão a respeito das artes em tempos de guerra, Mário de Andrade expõe de início suas razões para a escolha desse ilustre compositor, até então desconhecido no Brasil. Ele diz:

E foi nessa exigência de me caracterizar desde logo, que eu pensei […] em propor aos que me lerem o músico que eu considero o mais sublime do mundo moderno, o mais digno de ser admirado e seguido. É um caso em que o embaraço da escolha não existe para mim. A arte é um elemento de vida, e não de sobrevivência, eu já afirmei. Os artistas não existem para ficar ricos, ou célebres, mas para auxiliarem o exercício da vida, com suas definições e condenações. E a minha convicção, o meu entusiasmo apaixonado não titubeia um segundo em gravar nessa folha o nome de Nyi Ehr [Nie Er]. Poucos conhecerão entre nós esse grande chinês. Eu mesmo não tenho dele o conhecimento que desejava ter. ”

Como espectador de uma guerra que se estica do outro lado do mundo, nos anos em que se agita a Revolução Comunista, Mário de Andrade quer pôr em pauta uma caracterização toda sua sobre a arte musical. Ele enxerga na figura consagrada de Nie Er, “o maior dos músicos”, um artista sem igual (ao menos para divagação da crítica), capaz de encarnar os ideais de um tipo de música a favor dos tempos de demanda social, um criador não apenas consciente, mas enraizado em sua própria cultura e, acima de tudo, orientado por uma forte responsabilidade quanto aos combates sociais e políticos que a música faz repercutir.

A escolha não é fortuita, tampouco fruto de um capricho literário. Ao invés disso, procede de uma abertura estratégica às questões que permeiam a produção intelectual do autor paulistano, sobretudo no que diz respeito à necessidade de fixar uma renovada caracterização da arte musical que atendesse aos requisitos de uma música brasileira genuína. É tomando emprestados os símbolos de outra cultura que o autor não poupa palavras para homenagear Nie Er, cantar suas realizações e compor um retrato poético dessa personagem da história moderna da China. Interessante transcrever mais um trecho:

“Chinesinho de Iunã [Yunnan], logo se juntou a um farrancho de cantadores ambulantes, que ele acompanha malemal no seu violino arranhado. E vive assim, vive na maresia dos portos, vive no suor dos operários urbanos, ou entre os plantadores de arroz e chá, conhece todos os homens do ar livre. Entre eles, trabucando com eles, lhes dando mais alma com seu violino arranhado, Nyi Ehr [Nie Er] se impregna do canto de sua terra natal. ”

O fascínio do autor pelas coisas da China não era coisa nova. Ao contrário: conforme deixou claro em muitos lugares, ao longo de sua vida, foi-se nutrindo das sabedorias chinesas até formar uma espécie de pano de fundo por onde pudesse orientar algumas de suas questões, um lado de lá, para entrever por outras lentes a questão nacional na música.

Em seu universo particular, o canto a Nie Er representa a ideia de que, entre os artistas, se destacam aqueles que vivem no meio do povo e expressam suas duras realidades, sem a interposição de culturas teóricas, abstraídas por exercício intelectual ou, dito de outra forma, noutro lugar, sem o auxílio de “pesadonas doutrinas europeias” para encobrir as cruezas da vida comum.

Mário aponta assim Nie Er, um sujeito formidável que, tendo abdicado de si próprio, da glória que fez em vida, morreu consciente do papel que teve no alvorecer de uma nova China, erguida pelo canto que “surgia nos corações, berrava nas bocas chorantes”, para ver surgir esse seu grito, que é também o grito interno de um outro Mário: “Levantai-vos! Levantai-vos!”

Talvez o nosso autor estivesse certo ao capturar essa imagem fervilhante de um jovem músico, consciente e engajado na busca de uma arte que ressoasse as profundezas da alma do povo, como algo exemplar. E certamente a vida de Nie Er foi um exemplo para muitos. Abreviada aos vinte e três anos de idade, em circunstâncias que ainda deixam dúvidas no ar, sua produção artística deu-se na florescência de uma sociedade chinesa em plena transformação. Mário estava certo: Nie Er ajudou a definir o papel da Nova China no século 20. Por isso foi imortalizado e, até hoje, continua sendo o maior de seus compositores.

No entanto, quem foi Nie Er? Mais de setenta anos passados desde o texto de Mário, e mais de cem anos desde o nascimento do compositor, após as profundas transformações sociais por que passou a China e o mundo, saberemos agora definir melhor essa questão?

Nie Er, o “doutor-orelhas”

Nie Er, à esquerda segura um instrumento de cordas na orquestra infantil em 1924

Nie Shouxin, nascido em 14 de fevereiro de 1912, em Kunming, capital da província de Yunnan, no sudoeste da China, chamava a si próprio “Nie Er”, isto é, “doutor-orelhas”, um apelido que os amigos carinhosamente lhe deram devido ao traquejo autodidata com que se dava a estudar uma ampla variedade de instrumentos: dizi, yueqin, erhu, sanxian, posteriormente, até mesmo violino e piano. Carregava-os para todos os lados, ocupando as brechas do seu tempo para tirar deles as músicas folclóricas que apreciava. Foi em Kunming que teve os primeiros contatos com a música de sua terra, e também com aquela que atravessava as fronteiras até chegar à Europa. De personalidade expansiva, desde cedo se devotou a produzir cultura, integrando uma orquestra infantil, durante os anos de ensino fundamental, e duas sociedades artísticas musicais (já no ensino médio).

Sob a tutela de seu professor de inglês no YMCA de Kunming, teve acesso e profundo interesse pelas artes europeias, chegando a escolher um nome literário para assinar algumas de suas publicações musicais em revistas: “George Njal” (personagem do épico islandês Njáls saga). Foi sob os auspícios dessa instituição que começou a estudar violino por conta própria. Paralelamente, estudava marxismo, e aderiu ao Partido Comunista – fundado havia quase uma década –, cujas atividades o forçaram a deixar Kunming em 1930 e ir para Xangai.

Em Xangai, como violinista, se associou à famosa trupe “Grupo ao Luar de Música e Dança” (明月歌舞团 Míngyuègēwǔtuán), sob a direção de Li Jinhui (1897-1967), um dos percursores do 时代曲 shídàiqū, estilo musical definido pela fusão entre o jazz europeu e a música folclórica chinesa. O shidaiqu, já naquela época, havia lançado algumas cantoras que figurariam entre as mais famosas da China.

Os primeiros anos de Nie Er em Xangai contam uma história semelhante à de tantos outros músicos que buscam a vida numa metrópole efervescente. Ele fazia cachês em orquestras amadoras para pagar as aulas de violino com o renomado professor tcheco Josef Padushka (1877 – 1957). Com Padushka, Nie estudou os clássicos da música europeia. Todavia, o bombardeio de Xangai em 1932 pelas tropas japonesas, que deixara um número incontável de mortos, iria marcá-lo profundamente, levando-o a uma crise de consciência quanto à música que fazia e tanto se empenhava em aprender. Sobre isso, em 7 de fevereiro daquele ano, Nie Er se pergunta em seu diário se a “tão renomada música clássica não seria apenas uma brincadeirinha de passatempo? Eu passo horas por dia escravizando-me com exercícios básicos, e torno-me um violinista. Para quê? Podemos agitar as massas trabalhadoras com uma sonata de Beethoven? Será isso uma inspiração para eles? É o fim da linha! Acorde antes que seja tarde!”

Contudo, Nie Er não chegou a abandonar totalmente o interesse pela música erudita europeia, dado que veio a prestar, sem sucesso, a prova do Conservatório Nacional no ano seguinte, em 1933, tendo sido rejeitado por questões políticas mais do que musicais. Mas, definitivamente, passou a integrar as ideias revolucionárias a sua música, sobretudo por influência direta de Tian Han (1898 – 1968), famoso dramaturgo e ativista político que conhecera no Partido. Foi por ele encorajado a criar a Sociedade de Amizade da União Soviética, com o propósito de produzir músicas voltadas para as massas. E, assim, Nie Er passou a compor canções inspiradas na vida dos trabalhadores braçais (“coolies”), estivadores, vendedores de jornais, mineiros, construtores de estrada, condutores de bate-estacas, entre outros. Mesmo que o tema já estivesse sendo explorado por outros músicos, uma característica sua contada por Mário de Andrade o distinguia: antes de compor, ele vivia entre os trabalhadores com o intuito de conhecê-los para, assim, cantar suas vidas em canções que, ao final, lhes eram ensinadas e passadas adiante. Foi no boca a boca que suas criações foram sendo difundidas por toda Xangai. E isso foi suficiente para que chamasse a atenção da indústria fonográfica e cinematográfica, que surgia por aquela mesma época. Nie Er foi contratado por uma filial da gravadora Pathé Records, estabelecida em Xangai sob o nome “Pathé Oriente”, e por uma das primeiras companhias de cinema chinês, a Lianhua, Companhia de Cinema China Unida (联华影业公司 Liánhuá Yǐngyè Gōngsī), onde passou a compor trilhas sonoras e conduzir sua orquestra de estúdio.

Inserido nesses dois meios de difusão fonográfica e cinematográfica, Nie Er amplificou sua presença artística, extrapolando as fronteiras de Xangai. Acaso ou destino, é certo que sua música floresceu no exato momento em que o cinema chinês dava os primeiros passos – sobre o pano de fundo do realismo revolucionário –, apoiados pela inserção das modernas tecnologias de filmagem e gravação de áudio na sociedade chinesa. Nesse novo cenário, em sincronia com a demanda interna de ambos os meios (gravadoras e companhias de cinema) por músicas e trilhas sonoras originais, Nie Er pôde assistir à rápida disseminação de sua música. Isso abriu a ele horizontes até então sequer imaginados.

Consciente do seu papel político como artista engajado, Nie Er continuava produzindo canções, vivendo e ensinando os trabalhadores na organização de corais populares, cada vez mais numerosos. Como esse lado didático era inseparável de suas convicções, soube transportar a mesma lógica para o cinema, por meio de suas trilhas sonoras. A canção de maior impacto na cultura nacional foi, sem dúvida, a Marcha dos voluntários, composta em 1935 para o filme Crianças em tempos difíceis (风云儿女 Fēngyǔn Érnǚ), de Xu Xingzhi (1904 – 1991). Com letra de Tian Han, a música se tornaria o hino nacional da República Popular da China em 1949.

O sucesso inimaginável de Nie Er com essa canção em ritmo de marcha, entretanto, não foi percebido pelo próprio autor. Morreria no mesmo ano, logo após a composição e em circunstâncias suspeitas, durante uma viagem ao Japão, onde tencionava coletar material sobre as músicas folclóricas exportadas nos tempos da corte imperial chinesa. Da terra do sol nascente, Nie Er seguiria viagem para a União Soviética, visando aprimorar os estudos políticos e musicais. Perdeu-se dos amigos num banho de mar e foi encontrado morto no dia seguinte pela polícia japonesa, que notificou o afogamento.

Sabe-se que o lançamento de Crianças em tempos difíceis, previsto para 1935 e que resultou na prisão temporária do roteirista Tian Han, era uma iniciativa a ser reprimida. Portanto, não é difícil imaginar, conforme assinala Mário de Andrade, que Nie Er entrara para a lista negra do governo nacionalista de então. Seja o que for, quando correram as notícias de sua morte, Xangai entrou em luto, um luto que eternizou sua vida, consagrando-o como o maior e mais puro de seus compositores.

A penetração de sua música se deve, em grande parte, a sua personalidade e consciência, perfeitamente sintonizadas com os acontecimentos sociais da época e aliadas à expansão do cinema e do gramofone. Mas não se deve perder de vista que Nie Er, em sua rápida ascensão, tornou-se aquilo que se esperava de um jovem feito grande homem: um artista que soube expressar os percalços e destinos de toda uma geração. Hoje parte de uma memória inseparável da China Moderna, representada por sua música jovem e enérgica, esse artista é a sombra de um gigante, ainda nos dias atuais. “Levantai-vos! Levantai-vos! E a China inteira se ergueu ao grito de ‘Chee-Lai’”!

 

 “Mas o canto preferido de todos, e que Nyi Ehr compusera, levado pela preocupação maior de sua vida, é o ‘Chee-Lai!’, ‘Levantai-vos!’ (…) Se acaso recusais, como eu, ser escravos acorrentados!… E a China inteira se ergueu ao grito de ‘Chee-Lai’!

Mário de Andrade