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Por Cesar Matiusso

Montanha (山 shān) e água (水 shuǐ) são os elementos que, por excelência, compõem um cenário verdadeiramente chinês. Por isso, esses ideogramas formam a palavra “paisagem” — 山水 shānshuǐ —, que também designa o estilo de pintura tradicional dedicado a essa temática. Nele, a rigidez dramática de traços profundos, delineando rochas, é apaziguada por cursos de rios e calmaria de lagos, representados por manchas e gestos falhos. Outra presença célebre na pintura, as nuvens geram uma luminosidade difusa típica do sul da Ásia e criam uma perspectiva de sombras e cores em desmaio, quase a lembrança de um sonho. Cenário onírico que se imprime, para além do papel, também na memória dos visitantes de Guilin e Yangshuo, duas cidades chinesas à beira do Rio Li, na província de Guangxi.

Um dito popular anuncia: “As paisagens de Guilin são as mais belas sob o céu” e, desde 2014, a Unesco certifica: as formações geológicas da região são reconhecidas como patrimônio natural da humanidade. O título recém-conquistado é resultado do esforço iniciado nos anos 1980 para controlar a atividade industrial e proteger a herança histórica e natural da região. Com mais de dois mil anos de história, Guilin há muito deixou de ser um vilarejo, mas ainda escapa do destino de metrópole: não é uma cidade tomada por arranha-céus. Mesmo assim, poderia ser chamada literalmente de “selva de pedra”, por estar localizada em uma região de topografia marcada por montanhas que parecem emergir subitamente de seus campos, rios e lagos, além de cavernas e pontes naturais. A névoa revela a influência do clima de monções, típico do Sudeste Asiático e marcado por longos períodos chuvosos, cuja umidade é fundamental para a erosão das rochas calcárias. Assim é formado o sistema cárstico, uma configuração geológica rara no mundo, mas presente em quatro províncias da China, que abriga a maior diversidade desse tipo de relevo do planeta.

Vocação para destino turístico

O ex-presidente americano Richard Nixon havia dito que, depois de viajar por mais de 80 países, chegara à conclusão de que nenhum lugar ultrapassava a beleza de Guilin, “a pérola brilhante da China”. Figurando entre os principais destinos chineses desde a abertura do país para o turismo, Guilin sofreu muitas mudanças para explorar seu potencial ao longo das últimas décadas. Com o projeto “Dois Rios, Quatro Lagos”, iniciado em 1998 e concluído em 2002, a cidade ganhou uma ampla rede de serviços e infraestrutura de turismo, deixando de ser um ponto de passagem e atraindo o interesse do público. Hoje, serve de base para quem vai explorar a região.

A construção de canais interligando os lagos da cidade deu origem a seu roteiro turístico mais tradicional. O passeio de barco pelos Dois Rios e Quatro Lagos é uma forma agradável de conhecer Guilin em poucas horas: uma visita en passant por formações rochosas, construções antigas e modernas, estátuas, pavilhões e esculturas. Quando o sol se põe, o trajeto fica mais romântico, com pontes, árvores e monumentos iluminados e é ideal para quem já percorreu a cidade durante o dia. Apresentações da cultura local acontecem, às margens dos lagos ou em plataformas, para o público nos barcos.

Em meio ao lago Shan, ficam os pagodes do Sol e da Lua, construídos em 2002 no estilo budista da dinastia Tang. A Torre da Lua, com sete andares e 35 metros de altura, construída em madeira com detalhes em cerâmica, é acessada por uma ponte. De lá, um túnel subaquático leva os visitantes à Torre do Sol que, com 350 toneladas de cobre em sua estrutura de 41 metros de altura, é considerada a mais alta construção do mundo nesse material. Um elevador leva os visitantes a conhecer a vista do topo da torre de nove andares.

Na confluência dos Dois Rios, o Taohua e o Li, está outro ponto de parada obrigatório: o Morro Tromba de Elefante. De nome autoexplicativo, é uma formação rochosa popular entre os visitantes e há séculos inspira poesias. Uma típica embarcação local, as jangadas de bambu servem de mirante flutuante nos arredores.

O espaço entre a “tromba” e as pernas do elefante forma a Caverna da Água e da Lua, que tem inscrições da dinastia Song (960-1279) em seu interior. O nome vem do seu formato arredondado, que projeta a luz sobre a água de maneira a parecer uma lua cheia. Quem não tem aversão a degraus também pode apreciar a vista do alto das “costas” do elefante, que carregam o pequeno Pagode de Puxian, construído em tijolos no período Ming (1368-1644).

Contemplação e aventura

Antes de encerrar sua visita, considere passar pelo Parque das Sete Estrelas, que concentra algumas das formações rochosas mais impressionantes da cidade. A galeria de 240 metros de comprimento da Caverna das Flautas de Junco, considerada a mais bela da China, é repleta de estalactites com 700 mil anos de idade, e a iluminação gera uma atmosfera de outro planeta.

Dois programas de dia inteiro nos levam para longe do Centro: direto do mais profundo imaginário sobre a China rural, os Terraços de Longsheng são plantações de arroz que se vestem de diferentes cores conforme as estações do ano. O Monte Yao, por sua vez, é o mais alto em Guilin e oferece um panorama incomparável do topo de seus mais de 900 metros. Toda a montanha é recoberta por uma floresta exuberante. A subida se dá por uma contemplativa viagem de 20 minutos de teleférico em meio às copas das árvores. Já a descida, pasme, pode ser feita de tobogã, a bordo de carrinhos que deslizam a toda velocidade por uma canaleta metálica, no melhor estilo Jamaica abaixo de zero. Uma opção para quem está com os exames cardiológicos em dia.

De Guilin a Yangshuo pelo rio

O ponto alto de qualquer viagem à região é o tradicional cruzeiro entre Guilin e Yangshuo. Durante a jornada de quatro horas, um pergaminho de paisagem monumental se desenrola diante dos olhos dos viajantes. Há quem se aventure pelo rio Li em pequenas jangadas de bambu, algumas hoje construídas a partir de canos de PVC. Para alcançar Yangshuo, os barcos de cruzeiro são uma opção mais confortável e estão disponíveis em diferentes classes de valor e serviço.

Nesse trecho de mais de 80 quilômetros, o rio Li se estende como que por entre os dentes de um dragão — não faltam lendas e nomes poéticos para se referir a cada vista da região. Em suas margens, o modo de vida dos habitantes se esforça em resistir ao avanço dos tempos modernos, afinal, há tanta nobreza nessa simplicidade! Nas cidades antigas de Daxu e Xingping, a vida é vivida e compartilhada nas antigas vielas. Búfalos se alimentam, plácidos, nas paisagens alagadiças, enquanto pescadores contam com a ajuda de pássaros enormes — os cormorões — para fazer seu trabalho. Florestas de bambus são refletidas nas margens do rio enquanto coníferas recobrem os pés das montanhas.

É ainda próximo de Xingping que o barco passa pela imagem mais famosa do rio, o Espelho d’Água do Huangbu, uma vista eternizada nas cédulas de 20 yuans. Do convés do barco, turistas apressam-se em tirar uma boa fotografia segurando uma cédula em primeiro plano.

Terra de grandes impressões

Muito menor que Guilin, Yangshuo está mais próxima de um retrato da China rural — apesar da indústria turística — e acumula o título de paraíso dos praticantes de esportes e atividades ao ar livre. Caminhar pelos parques ecológicos, escalar montanhas, explorar cavernas e remar a bordo de caiaques são maneiras de entrar em contato com a natureza. Explorar a região de bicicleta, percorrendo campos e trilhas, é o modo mais agradável de chegar às atrações nos arredores da cidade.

Uma sugestão é pedalar até a Grande Figueira, uma Ficus benghalensis de 1.400 anos e 17 metros de altura que se estende por uma área gigantesca. De lá, são menos de dois quilômetros até o Morro da Lua, com uma perfuração redonda de 50 metros de diâmetro. A subida de 800 degraus tem final apoteótico quando se alcança a vista de dentro do arco. Na direção oposta, um destino mais cultural: a oito quilômetros a leste do centro de Yangshuo, leques pintados à mão são a especialidade do artesanato local na antiga cidade de Fuli.

De volta a Yangshuo, todas as noites, as águas do rio Li se transformam em um gigantesco palco, cujo cenário se desdobra por dois quilômetros, incluindo 12 picos de calcário e seus reflexos iluminados. Tochas, tambores, música e névoa se misturam à luz da lua e aos sons da água. Das arquibancadas construídas em terraços de frente para o rio, o público assiste ao espetáculo Impressões — Liu San Jie, produzido por Zhang Yimou, o mesmo responsável pela abertura das Olimpíadas de Pequim, em 2008, e por filmes como Lanternas Vermelhas. A performance, que conta com 600 artistas, a maioria locais da etnia Zhuang, retrata o tema universal do amor e tem como pano de fundo a vida nos vilarejos da região. É, por unanimidade, o melhor programa noturno e inspira a busca por novos destinos.