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Por Janaina Rossi Moreira

Há quem reivindique para a porcelana o status de mais célebre contribuição da China para o mundo. Será à toa que, em inglês, a palavra “china” – assim, com minúscula – significa justamente “porcelana”? Claro que não. À época em que os europeus chegaram a Jingdezhen, província de Jiangxi, no século 18, a cidade era a maior e mais ilustre produtora de louças.

Apesar de criada na época da dinastia Han Oriental (25 – 220), a técnica só foi dominada pelos ocidentais há coisa de três séculos. Embora conste que Marco Polo tenha trazido a Veneza algumas peças em 1295, o Velho Continente levaria ainda uns 500 anos para acertar a mão no fabrico dessa maravilha artística e tecnológica, incorporando-a de maneira irreversível à vida cotidiana da metade de cá do globo.

Água, terra e fogo

O domínio da técnica na fabricação de porcelana representa também o domínio sobre três elementos: da mistura de terra e água vem a argila, cuja transformação em cerâmica depende da habilidade no manejo do fogo. Falando em cerâmica, foi a partir dela que a porcelana se desenvolveu. Antiquíssima conhecida da humanidade, surgiu há pelo menos dez mil anos pelos quatro cantos do planeta – embora não necessariamente ao mesmo tempo. Já a porcelana tem cidadania inegavelmente chinesa.

A técnica surgiu provavelmente na província de Zhejiang, na costa leste do país, assentada em séculos e séculos de desenvolvimento da produção de cerâmica. Faz uns 3.500 anos que os chineses notaram que um tipo específico de argila, o caulim (do chinês 高岭 gāolĭng), rico em alumínio, convertia-se numa cerâmica extraordinária. Logo depois, descobriram como fazer a esmaltação a partir da cinza de determinadas plantas, e foram conseguindo obter temperaturas cada vez mais altas para cozer as peças. Mas foi no final da dinastia Han Oriental que a primeira porcelana propriamente dita foi obtida, misturando-se argila glutinosa de alta qualidade a cacos de cerâmica. Após modelado e queimado, o material resultante era firme, e podia ser ornamentado com gravações ou pinturas.

Então a linha evolutiva dos objetos de argila se dividiu definitivamente em duas “espécies” diferentes: após o advento de sua filha nobre, a técnica da cerâmica continuou a se desenvolver, mas agora como uma atividade distinta, separada da arte da porcelana. A diferença entre as duas está primeiramente no material de base. No caso da porcelana, puro caulim branco, quartzo e feldspato. Além disso, a porcelana é recoberta por uma camada de verniz de aspecto vítreo, e sua queima é realizada em temperaturas que vão de 1.200 a 1.300 graus Celsius, até que a porosidade seja reduzida a zero, ou quase zero. É essa ausência de porosidade que lhe confere uma propriedade muito importante: seu caráter à prova d’água. Já a cerâmica é feita com argila comum, queimada entre 800 e mil graus Celsius e pode ou não receber a tal camada de esmalte. E dá ainda para distinguir as duas pelo som que produzem: abafado, no caso da cerâmica; claro e vibrante, no da porcelana.

Com o tempo, os mestres oleiros foram experimentando métodos e materiais para criar uma conjunção perfeita entre beleza, refinamento, robustez e funcionalidade.

Joia de várias coroas

A estética chinesa clássica atingiu o apogeu na dinastia Song (960 – 1279), e olarias, oficinas e escolas se proliferaram por todo o território chinês (veja quadro). Cada uma delas fabricava um produto único, com personalidade e características muito próprias e distintas. Como escreve Fang Lili, em seu Chinese Ceramics, foi aí que o uso da porcelana passou a incorporar totalmente o conceito de “viver como uma arte”, que era a filosofia da elite.

Os povos do leste da Ásia absorveram o conhecimento a partir dos chineses, e logo os Orientes Médio e Próximo aderiram com fervor à novidade. Porém, a China permaneceu por muito tempo a principal produtora, recebendo encomendas de várias nações e adaptando motivos e formas aos pedidos, conforme a cultura, as convicções religiosas e as finalidades desejadas pelos clientes. O Império Otomano, por exemplo, que durou do século 13 ao 20, encontrou nos finíssimos artefatos chineses uma forma de ostentar ao mundo seu luxo e refinamento. A coleção de porcelanas chinesas do museu do palácio de Topkapi, na Turquia, conta com aproximadamente 1.300 peças e é uma das mais importantes do mundo. Finalmente, conforme o intercâmbio comercial com a Europa foi-se intensificando, as cortes ocidentais passaram também a encomendar suas peças, incrementando feitios, decorações e funções.

“Porcelanópolis”

A já citada Jingdezhen goza do título de capital mundial da porcelana desde os prósperos tempos dos Ming (1368 – 1644). A vila de Gaoling, de cujas montanhas vem a famosa argila empregada no fabrico das peças, fica bem pertinho. E até meados da dinastia Qing (1644 – 1912) a porcelana de Jingdezhen pôde sempre contar com essa matéria-prima, que no vocabulário mundial passou a designar genericamente a argila usada para fazer porcelana.

Porcelana fencai

Em Jingdezhen fica uma famosa exposição de olaria que recebe todos os anos milhares de turistas do mundo inteiro, ávidos por compras e curiosos para conhecer o processo completo (e fascinante) de fabricação da porcelana. Trata-se da Feira Internacional de Cerâmica, realizada todos os anos desde 2004. É realmente uma experiência notável visitar um local cuja tradição vem desde o século 9. Se, para nós de tradição ibérica, a portuguesa Vista Alegre é referência de tradição e qualidade em porcelanas, o que dizer de Jingdezhen, com mais de um milênio no currículo?

A primeira olaria (oficial) foi criada por ordem do imperador Hongwu (século 14), e sua produção era destinada exclusivamente para uso imperial, sendo a venda e uso de seus artefatos estritamente proibidos para além dos muros do palácio. Igualmente proibido era divulgar as fórmulas e métodos de queima. Mesmo com o empenho dos melhores oleiros e o uso dos melhores materiais, só uma pequena porcentagem da produção merecia entrar na Cidade Proibida, graças a um rigorosíssimo controle de qualidade. Todo o resto era destruído. Os produtos de Jingdezhen eram descritos como tendo a “transparência do espelho, a claridade do jade, a finura do papel e o som do sino”.

Um clássico

Porcelana qinghua, ou “flores azuis”

Uma abordagem aprofundada sobre a porcelana chinesa renderia facilmente umas 300 páginas. Focaremos então naquela que já foi considerada “a mais fina de todas”, e que ainda hoje é provavelmente a mais famosa e tradicional qualidade de porcelana chinesa. O seu desenvolvimento foi pouco a pouco deixando para trás as peças de cor jade ou acinzentada, e mais tarde impulsionou em grande medida a inclusão da porcelana realmente colorida na China e no mundo. Estamos falando da 青花 qīnghuā, literalmente “flores azuis”, remetendo à decoração sobre o corpo branco.

Criada do condado de Gong, província de Henan, a qinghua é o emblema por excelência da cultura chinesa da porcelana, e foi o produto mais popular dessa categoria por pelo menos cinco séculos. Ela começou a ser desenvolvida na dinastia Tang (618 – 907), sofisticando-se aceleradamente no decorrer da dinastia Yuan (1271 – 1368). A partir de então, foi atingindo a maturidade sob os pontos de vista técnico e artístico. Finalmente, a inclusão de novos motivos para a decoração das peças inaugurou a era seguinte no seu desenvolvimento.

Essa louça influenciou e foi influenciada fortemente, durante os séculos 13 e 15, pela cerâmica do mundo muçulmano. Sabe-se que os pigmentos azuis de cobalto utilizados na decoração dessas porcelanas vinham em grande parte do Oriente Médio. Ricos mercadores islâmicos acorriam a Cantão, o maior porto chinês da época, para adquirir itens qinghua por atacado, que eram embarcados para países da África, do oeste da Ásia e do Mediterrâneo. Havia fábricas chinesas que produziam essa variedade tão apreciada exclusivamente para os sultões otomanos, e é por essas e outras que, hoje, o palácio de Topkapi, em Istambul, abriga a maior coleção mundial de qinghua do período Yuan. O museu turco possui cerca de 40 peças daquela época, coisa que não se vê mais em nenhum outro lugar do planeta.

As peças desse tipo de porcelana são obtidas aplicando-se a coloração diretamente na argila moldada, antes da camada de esmalte, tradicionalmente com um pincel de caligrafia. Só então o futuro artefato recebe a camada de verniz, e é queimado uma única vez. Vale lembrar que, sob os Tang e os Song, a capital da porcelana, Jingdezhen, não fabricava louça colorida. No caso da porcelana conhecida como青白 qīngbái, com sua inconfundível coloração branco-esverdeada (tradução de seu nome), era o trabalho com texturas, relevos e gravações que conferia um tratamento artístico a cada peça, mantendo-se a cor original de jade.

Porcelana qingbai, branco-esverdeada

Na dinastia Yuan, o branco passou a ser reverenciado como uma cor auspiciosa, e a qinghua se valia dos desenhos em azul sobre sua branquíssima superfície como principal elemento decorativo. Isso fez com que os artesãos de Jingdezhen desenvolvessem técnicas de coloração e pintura inéditas e muito sofisticadas. Uma vez pintada e queimada a peça, as cores nunca mais desbotam. Isso mesmo: nunca mais.

Como já dissemos, o pigmento azul era feito de minerais de cobalto, e inicialmente não havia nuances de cor. Já entre as dinastias Ming e Qing , a técnica se elevou a um novo patamar. Na época do imperador Kangxi (1662 – 1722), a busca por transições mais suaves entre as cores levou ao desenvolvimento de cinco pigmentos diferentes, que eram mantidos em recipientes individuais e nunca eram misturados. Nascia a 五彩 wǔcǎi, literalmente “de cinco tons” (ou famille verte na denominação europeia), a partir dos quais na verdade se podia obter praticamente qualquer cor. Já ao final do reinado de Kangxi e durante o período do imperador Yongzheng (1723 – 1735), a porcelana 粉彩 fěncǎi (literalmente, “tom pastel”, ou famille rose) atingiu seu esplendor, tornando-se a variedade oficial do período. Praticamente o oposto da wucai, o então “último grito” da moda em louça era mais suave, calmo e sutil, na contramão dos tons vívidos e contrastantes da antecessora. A porcelana fencai ficou conhecida como de “pigmento leve”, enquanto a wucai era de “pigmento forte”.

Se, com o advento da fencai, a boa e velha qinghua foi sendo preterida nos fornos imperiais, sua presença continuou firme nos fornos e nos corações das massas. Ainda hoje é produzida, usada e reverenciada em larga escala. Até mesmo pelo tom da escrita de autores chineses sobre o assunto, é possível sentir que continua sendo o “arquétipo” da porcelana no país. E, se pensarmos bem, mesmo aqui no Ocidente a combinação azul e branco é soberana. Desde os suvenires holandeses até, nos países de tradição ibérica, as xícaras, canecas e aparelhos de jantar que costumam vir nessas cores. A brasileira Monte Sião, em Minas Gerais, sede da única fábrica a produzir porcelana azul e branca artesanal no país, é visitada por um sem-número de pessoas a cada ano. “Monte Sião”, para os brasileiros, já virou um adjetivo para designar essa louça tão querida. Enfim, a própria palavra “azulejo” está ligada ao nome da cor azul (ambos provavelmente de origem árabe, cultura apaixonada pelas porcelanas chinesas, como vimos).

O universo numa caneca

A criação da porcelana é um dos maiores marcos no progresso humano, tanto tecnológico quanto estético. E mais que isso, pois a incorporação desse item ao cotidiano de praticamente todos os povos ajudou a estabelecer valores culturais. A arqueologia conta com os objetos de cerâmica e de porcelana (tão resistentes que ainda são desenterrados praticamente intactos) como testemunhos preciosos e acurados de épocas muito antigas e civilizações já desaparecidas. Os autores de Pottery and Porcelain, Li Zhiyan e Cheng Qinhua, salientam que a história da transformação da argila na mais variada gama de utensílios e objetos de decoração é, sob certo ponto de vista, um reflexo do desenvolvimento da civilização chinesa, sendo os ideais, hábitos e história de cada período incorporados às louças de seus contemporâneos.

Em resumo, a porcelana, essa “joia feita de barro”, mesmo em suas versões banais e prosaicas de hoje em dia, traz consigo um dos mais profundos e multifacetados legados da trajetória humana sobre a Terra. Pesquisar o assunto é uma longa e prazerosa viagem.

Curiosidades do universo da porcelana

Melhor que jade – consta que o famoso imperador Yongle, que reinou entre 1402 e 1424, mandou devolver a um governante muçulmano um jogo de tigelas de jade, dizendo que nada era melhor que sua vasilha de porcelana branca para apreciar uma refeição. Pelo peso que a cultura de “adoração ao jade” sempre teve no Leste Asiático, esse ato do monarca mostra o prestígio que a porcelana rapidamente adquiriu.

O país dos Cinco Fornos – porcelana também é filosofia. A revivescência do taoismo durante a dinastia Song encontrou na porcelana e seus processos um modo de aprofundar e traduzir uma busca espiritual na natureza (pela beleza, pela firmeza, por “experiências intangíveis de vida”). A época ficaria conhecida como a Era da Porcelana. Há cinco “grandes fornos” (na verdade, qualidades de porcelana) estabelecidos na dinastia Song: o Ding, o Ru, os fornos imperiais, o Ge e o Jun. e havia seis principais “escolas”, “estilos” que norteavam a produção do período — no norte do país, Ding, Yaozhou, Jun e Cizhou. No sul, Longquan e a suprema Jindezheng.

Portuguesa, com certeza – apesar de entrar bem atrasada para o rol dos produtores, a Europa desenvolveu louças e porcelanas excelentes. Como estamos no mundo lusófono, vale mencionar Ílhavo, o lugar para se encontrar a maior variedade e a melhor qualidade de peças em Portugal. A cidade abriga uma célebre fábrica, fundada em 1824, e até um museu bastante cotado entre as atrações turísticas da região de Aveiro, distrito onde fica Ílhavo.

Não é difícil achar em uma casa brasileira uma caneca, um galheteiro ou uma jarra de Monte Sião, a cidade mineira da louça azul e branca. No início, a fábrica de porcelanas só fazia pequenos bibelôs, até que alguém resolveu encomendar a cópia de uma jarra… portuguesa.