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Por Felipe Zmoginski

Na província chinesa de Shandong, o jovem empresário Yue Lianggu ganha a vida ajudando agricultores locais a vender suas frutas e verduras pela internet. “Eu emprego duas pessoas em tempo integral só para fazer live streaming (conteúdo transmitido ao vivo em sites e redes sociais). Nós transmitimos a colheita diária, a distribuição das frutas, contamos a história de quem as produz e até educamos os consumidores sobre as melhores formas de consumi-las”, conta Yue, em transmissão on-line.

O canal criado pelo jovem empreendedor lhe permitiu escapar da lida diária na lavoura, destino de seus pais, avós e bisavós. Mais do que isso, o trabalho de Yue possibilita que donas de casa e pequenos comerciantes em metrópoles como Xangai e Pequim acessem a produção das fazendas locais e fechem pedidos diretamente com os agricultores, eliminando atravessadores e elevando a renda das famílias no campo.

O e-commerce rural, que permite que Yue seja um empresário da internet sem precisar migrar para uma cidade maior, faz parte de um conjunto de iniciativas para a redução e eliminação da pobreza. Apesar do sucesso econômico vertiginoso da China, que transformou suas grandes cidades em símbolos globais de modernidade e riqueza, ainda há um percentual da população que vive em condições precárias.

De acordo com dados de 2019 da Agência do Conselho de Estado para o Alívio da Pobreza, órgão dedicado à erradicação da miséria na China, ainda há no país 5,51 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, sobretudo na zona rural. Pelos critérios chineses, é considerada miserável uma pessoa que disponha de menos de 2,30 dólares por dia para seu sustento.

Inclusão e infraestrutura

Transformar fazendeiros e camponeses em “retailers” do comércio on-line não foi, obviamente, uma tarefa simples. O primeiro passo foi assegurar que a conectividade à web estivesse disponível em todos os rincões do país. De acordo com o Ministério da Indústria de Tecnologia da Informação, das 550 mil aldeias rurais espalhadas pelo território chinês, 98% já são atendidas por redes 4G disponibilizadas pelas principais operadoras. Estações-base 5G serão instaladas também em áreas rurais, em um plano que pretende levar a nova forma rápida de conexão, já disponível nas grandes metrópoles, às menores aldeias até 2025.

O setor público foi responsável, ainda, por um aguerrido plano de infraestrutura terrestre, que abriu novas estradas, pontes e vias expressas conectando milhares de pequenos municípios às principais vias de escoamento de produção. Só em 2019, registra a Agência Nacional de Estatísticas, 312,7 bilhões de dólares foram investidos na ampliação, construção de rodovias e obras de infraestrutura. De acordo com Roy Mantelarc, professor de Economia da Universidade de São Paulo e especialista em China, os investimentos públicos foram fundamentais para criar as bases que estão permitindo que as regiões rurais saiam da pobreza. “Com estradas eficientes e conexão digital de boa qualidade, qualquer coisa que se produza no interior do país pode ser oferecida ao mundo todo por preços competitivos, já que essas aldeias não estão mais isoladas, nem no aspecto físico, nem no digital”, diz.

Parceria com o setor privado

Todo o investimento dos governos central e das províncias ganhou tração econômica quando os órgãos voltados à promoção do comércio interno criaram o “Programa-Piloto de E-commerce Rural”. Inicialmente testado em 20 vilarejos, o projeto chegou a 1.000 pequenas cidades em seus primeiros 4 anos de vida. Nesse projeto, um pequeno produtor de laranjas podia vendê-las, por app, para um consumidor na cidade, obtendo pelo quilo de seu produto até 10 vezes mais do que ganhava originalmente. Isso só se tornou possível porque havia internet disponível no campo e serviços de logística eficientes para o transporte direto à cidade.

O interesse dos gigantes de e-commerce pela produção rural deu ao programa-piloto projeção nacional. Há seis anos, por exemplo, o grupo Alibaba, uma das maiores empresas digitais do mundo e líder em comércio eletrônico na China, estreou o Taobao Villages, projeto que buscava convencer produtores rurais a criar lojas on-line dentro do “market place” do grupo. Na prática, era como colocar a verdura de uma pequena horta no interior na maior gôndola virtual do país, no caso, o site Taobao.com.

Em seu esforço rumo ao campo, a companhia privada acelerou várias etapas de “transformação digital” dos camponeses, como a construção de infraestrutura física para armazenamento, embalagem e distribuição de produtos que seriam remetidos à cidade, além da oferta das ferramentas de mapas de roteirização do grupo para permitir que empresas terceiras otimizassem a logística de entregas.

A contribuição do Alibaba estendeu-se também à educação dos camponeses, que foram ensinados a operar ferramentas de marketing digital, cadastrar seus produtos na plataforma da empresa e desenvolver marcas próprias. O processo de “evangelização digital” envolveu o envio de especialistas da empresa a diversas fazendas do país, para conversar e treinar os produtores in loco. Em muitos casos, centros comunitários foram equipados com desktops da empresa, para uso em aulas e, posteriormente, operação diária dos camponeses.

O jovem Yue Lianggu, por exemplo, foi um dos beneficiados por esse treinamento, que ele transmite a outras pessoas de origem camponesa. De acordo com Yue, a intimidade com meios digitais ainda é uma barreira para os mais velhos e, em geral, as famílias reservam as atividades ligadas ao uso da internet a um membro mais jovem da casa, que tenha mais habilidade com plataformas virtuais. A contribuição do Alibaba se estende, ainda, à introdução, no campo, de sua ferramenta de pagamentos, o AliPay, pelo qual o produtor pode gerenciar o dinheiro recebido de clientes na cidade, fazer investimentos e comprar outras coisas de que precise.

O projeto TaoBao Villages, embora pioneiro, não é a única iniciativa dos conglomerados privados. Os players números dois e três em vendas eletrônicas no país, JD, com sede em Pequim, e Pinduoduo, em Xangai, fizeram investimentos similares, travando uma competição que deu alternativas de escolha de plataforma e múltiplas opções de venda aos produtores.

De acordo com o Ministério do Comércio, em 2019, as vendas on-line geradas pelos produtores do campo somaram 242 bilhões de dólares no critério GMV (Gross Merchandise Value), que soma o valor do ticket de todos os produtos vendidos. O número é quase 10 vezes maior que o de 2014. A alta de 19,1% ficou acima da registrada no comércio eletrônico como um todo, na China, que cresceu 16,5% sobre o ano anterior.

Migração e turismo rural

As vendas on-line são, sem dúvida, um vetor essencial na redução da pobreza, que resiste ao crescimento econômico chinês, mas certamente não são a única forma de enriquecer o campo. O processo de digitalização e melhoria da infraestrutura física também permitiu levar mais e melhores professores até aldeias distantes.

Na região de Lanping, província de Yunnan – próximo à fronteira com Mianmar –, por exemplo, cada jovem estudava 8,5 anos até a vida adulta, segundo os dados oficiais. No resto do país, a média é de 10,5 anos. Junto com estradas e torres de internet, vieram novas escolas e opções de educação à distância, com os melhores professores disponíveis em Pequim ou Xangai. O acesso a uma educação de qualidade superior tem permitido que mais jovens de áreas rurais possam competir em igualdade de condições na concorrida prova de ingresso nas universidades chinesas, o Gaokao.

Em algumas regiões do Oeste chinês, no entanto, as condições climáticas são tão desfavoráveis à atividade econômica que programas públicos incentivaram a migração de até 7 milhões de pessoas para regiões com maior potencial de desenvolvimento, além de melhor oferta de empregos, escolas e postos de saúde. Em muitos casos, para os que não quiseram deixar seu local de nascimento, foi instituído um programa de subsídios que, de certa forma, pode ser comparado ao Bolsa Família brasileiro: recursos mensais distribuídos a cidadãos em condição de pobreza proveem o mínimo necessário para a subsistência.

No interior do país, algumas aldeias estão explorando suas belezas naturais e lavouras para atrair o turismo interno, atividade econômica que contribui para elevar a renda das regiões menos desenvolvidas. Alvo de um processo acelerado de urbanização, a China conta com dezenas de milhares de jovens que, por exemplo, nunca viram de perto como se produzem frutas e verduras. Até mesmo os arrozais, consagrados em pinturas famosas que retratam a China e cujo produto é a base da alimentação em boa parte do país, nunca foram visitados por boa parte dos jovens urbanos.

Desde 2017, um programa governamental tem concedido crédito para que pequenas prefeituras e empresários em áreas remotas do país reformem hospedarias, restaurantes e construam atrações turísticas que podem ser, simplesmente, um final de semana de colheita de frutas. Um caso bem-sucedido de uso do turismo rural para gerar renda é o da região de Zhashui, cidade na província de Shaanxi, um município historicamente marcado pela pobreza.

Há dois anos, essa região de clima ameno e belas montanhas passou a atrair viajantes que desejam conhecer a produção de cogumelos e ervas medicinais. Os turistas não vão a Zhashui só porque buscam um momento de relaxamento e paz longe da atribulada vida urbana, mas sobretudo porque acreditam no poder das ervas para melhorar sua disposição, imunidade e até libido. Segundo dados oficiais, antes de o município criar o programa de turismo, 22,6% dos moradores tinham uma renda que os colocava em situação de “pobreza grave”, número que foi reduzido para 0,91%, até o final do ano passado.

Questão de tempo

Esforços em áreas como turismo, comércio eletrônico e educação são considerados essenciais para a redução acelerada do número de pessoas em situação de pobreza. A base que sustenta esse fenômeno, no entanto, é o crescimento econômico, que expande o mercado interno e beneficia cidadãos em todas as camadas sociais. Um dos vetores relevantes no processo de erradicação da miséria foi a política de industrialização chamada, em inglês, de “Go West”, em que fábricas nacionais e estrangeiras são incentivadas, por programas tributários, a se deslocar para o Oeste do país, economicamente menos desenvolvido. Com as indústrias, chegam empregos melhores e mais desenvolvimento.

Pela primeira vez em mais de três décadas, no entanto, a China deixou em aberto sua meta de crescimento econômico para 2020, já que o Ocidente, seu principal destino exportador, enfrenta uma recessão, sob os efeitos da pandemia da Covid-19. O próprio mercado interno chinês anotou, no primeiro trimestre deste ano, a primeira retração de seu Produto Interno Bruto, gerada pela paralisação parcial de atividades econômicas em fevereiro e março, também como consequência da crise sanitária. Tantos desafios colocam em xeque a meta, agora sob revisão, de eliminar a pobreza absoluta no país ainda em 2020. Ao olhar as iniciativas chinesas em perspectiva, porém, fica claro que a recuperação econômica pós-Covid já ocorre, e um país sem pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza é apenas uma questão de tempo.