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Por Janaína Camara da Silveira

As décadas de 1920 e 1930 em Xangai foram embaladas ao som do jazz, numa efervescência cultural que gerou por ali também uma indústria poderosa de cinema e, claro, de celebridades. A cidade viveu um apogeu das artes, atraindo músicos, escritores e gente de cinema. Marlene Dietrich foi até lá para lançar filme, e Charles Chaplin também flanou pelas ruas xangainenses – só para citar duas estrelas proeminentes de Hollywood que não resistiram a conhecer a exótica metrópole mais cosmopolita do Oriente.

Vindo dos Estados Unidos no tempo das concessões estrangeiras, o jazz logo se fundiu ao gosto local: as letras românticas de histórias de amores – mal resolvidos ou não – emprestavam lirismo ao ritmo estrangeiro. Um belo exemplo dessa mistura é a canção 得不到的爱情 The Love You Can’t Get. Sucesso total, numa atmosfera que até hoje é recriada em casas de shows, espetáculos e bares.

No bar do Fairmont Peace Hotel, próximo ao Bund, a banda de jazz mais antiga da cidade ainda está na ativa. Todos os dias, a partir das seis e meia da tarde, um quinteto ou sexteto – acompanhado de uma voz feminina, como era a tônica desde há quase um século – executa o set com os sons que marcaram época. A média de idade dos músicos é 80 anos, o que só traz mais vivacidade ao espetáculo. É música e história ao vivo.

Perto dali, o Long Bar, antigo clube inglês originalmente só para homens, recebe todas as noites, a partir das oito horas, uma banda de jazz. Entre um drink maravilhoso e outro, é a melhor pedida para um passeio pelo glamour da antiga Xangai.

Num lugar que abraçou com tanta força o jazz, claro que há espaço também para a bossa-nova, a fusão brasileira do samba ao ritmo norte-americano. Não se assuste se reconhecer clássicos de Vinícius e Tom cantados em chinês. A nipo-brasileira Lisa Ono, que vive no Japão, costuma fazer turnês anuais em Xangai, sempre com casa lotada, e um repertório exclusivamente bossa-novista. Jasmine Chen, uma chinesa que canta também algumas músicas em português, é outra intérprete do estilo.

Xangai gestou também o Shanghai Restoration Project, do produtor nova-iorquino de música eletrônica Dave Liang. Ele incorpora o jazz clássico de raiz local a batidas eletrônicas, com uma fórmula única e capaz de prender a atenção por horas. Em casa, as músicas relaxam, num bar, animam. Ao vivo, levantam a plateia, em shows que Liang faz pelo mundo – especialmente nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia.

Mas se a ideia é ouvir um bom jazz, sem preocupação, inclusive noite adentro – e não só para o happy hour –, uma das instituições da metrópole é o JZ, uma casa de shows que traz bandas locais e estrangeiras regularmente, muitas vezes promovendo jam sessions incríveis entre músicos locais e visitantes. Não satisfeitos, os donos promovem todos os anos, geralmente em outubro, um festival de jazz com bandas e cantores aclamados no mundo todo. O evento se estende por três dias e noites, para quem tem fôlego. Começou em um pequeno parque, mas hoje já ocorre em centros de eventos, dado o tamanho do público. Invariavelmente, os artistas fazem uma escala no próprio JZ no pós-festival, em jams ainda mais disputadas.

Ouça a versão de 得不到的爱情 The Love You Can’t Get interpretada por Yao Lee (uma das Sete Divas de Xangai, leia AQUI) e a nova mixagem do Shanghai Restoration Project: