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Por Cesar Matiusso

É difícil imaginar o ensino – e mesmo o uso – da língua chinesa sem o pinyin, sistema criado na China para transcrever os ideogramas em letras romanas. Hànyǔ Pīnyīn é o nome completo da maior herança deixada pelo linguista Zhou Youguang. Adotado oficialmente em 1958, ele substituiu outros sistemas de escrita fonética, como parte do pacote de reformas que simplificaram os caracteres chineses. A padronização influenciou a maneira como palavras chinesas são escritas em outras línguas, inclusive no português, onde “Lao-Tsé”, por exemplo, passou a ser escrito “Laozi”.

Zhou Youguang

Os ideogramas chineses são caracteres complexos que podem conter radicais com informações fonéticas ou semânticas, enquanto os sistemas alfabéticos privilegiam uma representação convencional dos sons do idioma. Devido à evolução linguística, aos empréstimos feitos na escrita e aos tortuosos caminhos da etimologia, muitas vezes o som da parte fonética de um ideograma já não descreve com exatidão sua pronúncia. Além disso, muitos caracteres sequer são portadores de uma parte fonética, ou seja: para aprender chinês, é preciso conhecer os ideogramas e sua pronúncia, sem que ela esteja necessariamente apontada de modo gráfico.

Um sistema capaz de descrever todos os fonemas e sílabas possíveis no mandarim é de grande ajuda na aquisição e diferenciação dos sons da língua chinesa. Mesmo que duas palavras soem idênticas aos ouvidos do estudante, se as formas romanizadas forem diferentes, há uma distinção na pronúncia que precisa ser encontrada, identificada e depois reproduzida. A ajuda é bem-vinda para os estrangeiros que estudam o chinês, mas é preciso lembrar que o pinyin também se tornou base para o ensino do idioma em toda a China – país com dezenas de etnias e línguas, no qual consolidar o acesso e uso do mandarim constituiu um verdadeiro desafio –, e hoje é celebrado como um importante fator na melhoria dos índices educacionais.

O fim do império deu vazão a muitas discussões sobre a escrita chinesa, e grupos mais radicais chegaram a defender o fim do uso dos ideogramas como forma de torná-la mais eficiente com um sistema alfabético. Muitos estudantes se perguntam, em seus primeiros contatos com a língua, sobre a importância dos caracteres. Em defesa dos ideogramas, é preciso apontar a notória quantidade de palavras no chinês com pronúncia idêntica, que só podem ser diferenciadas em contexto ou, mais facilmente, por diferenças gráficas. Além disso, o ideograma contém traços semânticos, etimológicos, filosóficos, culturais, literários, artísticos e tradicionais que não teriam espaço em uma escrita fonética. Por isso, o pinyin não veio para substituir os ideogramas, mas para fortalecer seu uso e aprendizado. A maior prova disso é que os métodos de inserção de texto mais usados em computadores e celulares são os teclados baseados em pinyin, que sugerem ideogramas à medida que as sílabas são digitadas em alfabeto romano, em sistemas cada vez mais inteligentes e rápidos, que aprendem com os usuários e tornam a digitação em chinês tão ágil quanto em qualquer outra língua, ou até mais. No mundo digital, podemos dizer que a principal interação entre os falantes de chinês e a língua escrita se dá por meio do pinyin.

Os quatro tons

O chinês é uma língua tonal. Isso quer dizer que a entonação tem a mesma importância de uma vogal ou consoante na diferenciação das palavras. A palavra “ma”, por exemplo, pode significar mãe, dormência, cavalo ou repreender, conforme o tom em que é pronunciada.

Um guia prático

Como são escritas as sílabas

A sílaba chinesa é composta por três elementos: inicial (consoante), final (vogais ou ditongos, que podem ser seguidos das nasais -n e -ng) e tom (indicado por um “acento” sobre a vogal). Observe que os sinais diacríticos são uma forma minimalista do próprio gráfico dos tons do mandarim:

O pai do pinyin

Durante três anos, Zhou Youguang trabalhou incansavelmente na construção do sistema que seria considerado, por unanimidade, sua maior obra e lhe daria o título de “pai do pinyin” – ainda que sua biografia inclua outros grandes êxitos, como a tradução da Encyclopædia Britannica para o chinês. Nascido no fim do período imperial, Zhou nos deixou em 2017, aos 111 anos de idade, tendo vivenciado as transformações que a China e a língua chinesa enfrentaram ao longo do século 20 e no início do 21 com o mesmo vigor que lhe permitiu publicar livros até os últimos anos de sua vida.

 

Como funciona a tabela

Para se fazer o melhor uso possível da tabela do pinyin, é importante perceber como ela foi organizada, porque, assim como os elementos químicos estão dispostos de forma lógica na tabela periódica, os sons do chinês também são ordenados de acordo com suas características e propriedades. Os fonemas estão separados em famílias definidas pelo ponto de articulação, ou seja, o ponto exato onde cada som da fala é produzido. Dentro de cada família também há subdivisões quanto ao modo de articulação que, depois de conhecidas, ajudam a entender e diferenciar melhor os sons da língua chinesa. A tabela a seguir foi editada de maneira a ressaltar as características de cada grupo e contém anotações importantes sobre as famílias de sons.

As descrições do som são muito mais fáceis de compreender quando acompanhadas de uma experiência sensorial, observando-se a posição dos lábios e da língua e a passagem de ar. Por isso, recomendo pronunciar os sons à medida que você lê sobre cada grupo.

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