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Por André Ribeiro

Os instrumentos musicais tradicionais formam um grande caleidoscópio da diversidade étnica da China. São dezenas de culturas preocupadas em preservá-los e dar às próximas gerações a oportunidade de entender uma história musical em constante transformação. Mas, num país tão imenso e antigo, e de cultura tão variada como a China, como situar e compreender os instrumentos musicais no presente?

Ecologia sonora

Os antigos chineses apreciavam tanto a diversidade de músicas e instrumentos que chegaram a criar, na dinastia Han (202 a.C.–220 d.C.), um departamento governamental específico para classificá-los. Na época, os tipos de instrumentos não passavam de 70. Já hoje em dia, estima-se que haja no país mais de 600 mil variedades de instrumentos musicais étnicos, muitos deles absorvidos de outras culturas. Estão classificados no antigo sistema 八音 Bā yīn, ou “dos oito sons”, que remonta ao período Zhou do Oeste (1046–771 a.C.). As oito categorias são definidas conforme a matéria-prima ressonante: metal, pedra, seda, bambu, cabaça, argila, pele e madeira. Esses materiais são associados a diferentes estações do ano.

Diz-se que, na China, a música foi sempre relacionada às forças e expressões naturais. De certo modo, o Ba yin é um “catálogo de cores sonoras” da natureza. É também um modo de situar os instrumentos em um rol de princípios naturais considerados permanentes. Embora, na natureza, tudo se transforme, de tempos em tempos surgem os mesmos frutos e resultados. Os sons produzidos pelos instrumentos são os seus testemunhos — é como se ouvíssemos a voz da natureza.

Os oitos sons

A primeira categoria é o metal, com sinos, pratos e gongos. O 编钟 biānzhōng é o grande destaque do grupo. Trata-se de um carrilhão de 12 sinos de bronze, afinados de acordo com a escala cromática de 12 sons, em uso na música cerimonial desde a dinastia Shang (séc. 17-11 a.C.). Em 1978, uma escavação arqueológica recuperou 65 sinos de bronze muito bem preservados, datados de 433 a.C. Hoje o conjunto integra a coleção do Museu de Hubei e faz parte dos tesouros nacionais que não podem ser levados para exposições no exterior. Os bianzhong são um exemplar único da metalurgia na Era do Bronze. Por sua forma peculiar, o mesmo sino produz duas notas musicais. Impressiona o domínio da acústica e da manufatura.

Instrumentos de pedra eram comuns na antiguidade, e sua fabricação é, por vezes, muito sofisticada. No geral, são instrumentos de percussão, como os carrilhões de jade mencionados na literatura antiga como 编磬 biānqìng, um conjunto de pedras planas em forma de “L”, frequente nas cerimônias confucianas e cujo som majestoso evoca a lembrança dos que perderam a vida em defesa da nação.

Entre os instrumentos de pele, há diversos tambores, desde os pequenos tamborins de dupla face, como o 拨浪鼓 bōlang gǔ, até os grandes tambores (大鼓dà) rituais usados nas cerimônias budistas e confucianas. Os tambores costumam desempenhar funções musicais como: marcar os passos de uma procissão ou cortejo; abrir e encerrar cerimônias; reforçar sentimentos; dar o tom do clímax a enredos ou, simplesmente, anunciar as horas, como em alguns mosteiros budistas. Estão presentes em toda a cultura folclórica chinesa, da ópera às danças regionais, e são o carro-chefe de um estilo do nordeste da China, conhecido por combinar conjuntos de percussão a instrumentos de sopro.

No imaginário chinês, as cabaças eram associadas a poderes medicinais, elixires, poções mágicas e vinhos sagrados, além de servirem de amuleto. As palavras chinesas 葫 “cabaça” e 护 “proteção” ou “bênção” têm pronúncia muito semelhante – em alguns dialetos, 福 “felicidade” também soa bem parecido. Por essas e outras associações, as cabaças possuem alto status simbólico. O (milenar) órgão de boca 笙 shēng e a (recentíssima) flauta de 葫芦丝 húlusī estão entre os instrumentos mais frequentes feitos desse material.

O primeiro, composto originalmente de 13 tubos inseridos em uma cabaça, lembra muito a sonoridade dos grandes órgãos de igreja, em escala reduzida. Até hoje é usado nas cerimônias confucianas e taoistas. Reza a lenda que o design do instrumento reproduz a imagem de uma fênix de asas fechadas. O timbre é estável e firme, com certo brilho metalizado. É comum na ópera chinesa e nos grupos folclóricos de percussão e sopros do nordeste da China. Com a modernidade, ganhou novas versões, que chegam a contar com mais de 50 tubos.

Já a flauta de cabaça é construída em três segmentos de bambu. Suas origens são frequentemente associadas às etnias dai e yi, nativas de Yunnan, mas foi só a partir do fim da década de 1950 que ela se tornou conhecida no restante do país, alcançando, desde então, incrível popularidade.


Os instrumentos tradicionais reunidos na categoria da madeira são todos muito antigos, como o 柷 zhù – caixa semelhante a um cachepô, percutida nas bordas internas com uma vareta de bambu; o 敔– peça em forma de um tigre com as costas serrilhadas tocada com um maço de varetas de bambu; e o 木鱼 mùyú – em forma de peixe, percutido na cabeça ou raspado no dorso, que também é serrilhado. Muitos desses instrumentos foram criados para uso cerimonial ou religioso e, mais tarde, passaram a ser usados na cultura popular.

De todas as categorias, a do bambu é certamente a mais expressiva, pois carrega consigo lendas e símbolos da antiguidade. As flautas reproduzem as suaves modulações do canto da fênix, que o lendário Imperador Amarelo buscou capturar em sua teoria musical. Diz a lenda que, ao enviar um de seus dignitários às montanhas do Oeste para colher uma espécie rara de bambu, de propriedades sonoras que lembravam canto da fênix, o Imperador Amarelo teria patrocinado o primeiro diapasão da história da China – e, provavelmente, do mundo. Ou seja, as flautas têm um papel central nas antigas teorias musicais porque fixam as frequências-padrão para todos os demais instrumentos.

A seda é outra categoria de grande importância no ba yin. Símbolo de prestígio e refinamento, essa fibra natural era usada nos instrumentos de corda de mais alto valor. O que cativou os antepassados por séculos foram os sons que o material produzia após passar pelo longo e complexo processo de manufatura. Os instrumentos de seda se dividem em três classes, segundo o modo como cada um é tocado, a saber: pinçando, friccionando ou percutindo as cordas. Cada categoria engloba instrumentos de origens e manufaturas diversas.

Entre as cordas pinçadas, temos o 古琴 gǔqín, cítara de sete cordas que remonta a 16 séculos antes de Cristo, imortalizada por Confúcio. Eleita pelos eruditos chineses uma das “quatro artes”, era colecionada por eles e até inspirou ideologias. Nenhum outro instrumento foi tão retratado em pinturas, nem tão mencionado na poesia. Patrimônio intangível da humanidade pela Unesco desde 2003, foi até para o espaço, a bordo da sonda Voyager, em 1977: estava entre as gravações do Golden Disk, que continha imagens e sons da Terra.

Na mesma categoria, vale mencionar o 古筝 gǔzhēng, outra cítara ancestral. Provavelmente criado há mais de 2.500 anos, é tão popular que pode ser encontrado até em bandas de pop e rock, ao lado de teclados e guitarras elétricas. Outro é o 琵琶 pípá, alaúde em forma de pera, famoso na literatura e na pintura e instrumento preferido da elite palaciana entre os séculos 7o e 10.

Já a família das cordas friccionadas é marcada pela presença dos 胡琴 húqín, também conhecidos como violinos chineses. Dentre eles, destaca-se o 二胡 èrhú, um dos instrumentos chineses mais populares na atualidade. O som se aproxima do da viola de orquestra ocidental.

Finalmente, temos o grande representante das cordas percutidas, o 扬琴 yángqín. É um dos instrumentos mais recentes na história da China e está ligado ao desenvolvimento da música do sul do país, entre Xangai e Hong Kong. É muito popular nos grupos de câmara folclóricos do estilo chamado Seda e Bambu (por conterem em sua formação instrumentos desses dois materiais). Mas o yangqin também é importante nas orquestras modernas chinesas, onde faz o meio de campo entre guitarras, alaúdes, flautas e violinos chineses.

Para terminar, temos os instrumentos musicais de argila. São as ocarinas chamadas de 埙xūn, cujos exemplares mais antigos já encontrados têm mais de 7 mil anos. Normalmente é feito de cerâmica, argila ou pedra e já teve inúmeros formatos, do ovoide tradicional ao esférico, passando pelas formas de peixe. A matéria-prima também pode ser osso, marfim ou plástico. Muito usado em rituais e cerimônias confucianas, o caráter melancólico do xun é mencionado na literatura antiga como um símbolo de recolhimento, da tristeza feminina e do declínio dos heróis.