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Por Sergio Maduro

Fim de tarde em Xangai. Em uma esquina, homens amontoam-se, formando um círculo agitado. No meio da roda, dois sujeitos empunham varetinhas de bambu, balançadas freneticamente dentro de um pequeno recipiente de plástico. Na verdade, trata-se de uma rinha, onde se encontram os pequenos contendores do dia: dois grilos.

Sim, na China, as brigas de grilo – como as de galo em outras partes do mundo – são um espetáculo tão antigo quanto popular. As apostas em rinhas de grilo são oficialmente proibidas, mas isso não impede que muitos resolvam afrontar a lei e arriscar dinheiro – às vezes muito dinheiro – nessas lutas de insetos.

Mas os grilos não são apenas miniaturas de lutadores, para os chineses. Muitos os têm como animais de companhia e estimação, para serem levados dentro de uma caixinha no bolso ou passarem a noite cantando na cabeceira da cama.

Artistas das rinhas ou dos palcos, o interesse do ser humano pelos insetos é bastante antigo, muito anterior à moderna técnica de criar grilos como isca para pescarias ou como alimento para animais insetívoros em cativeiro.

Prova disso é o domínio das técnicas de criação de insetos, como o bicho-da-seda, por exemplo, que acabou tendo enorme importância humana e mercantil, estabelecendo a Rota da Seda, um caminho comercial que cortou a Ásia e uniu uma parte significativa do mundo na antiguidade.

Mas hábito de trazer os grilos para o ambiente doméstico, como insetos “cantores” ou de companhia, remonta à dinastia Tang (618-907) e tem, portanto, mais de mil anos.

No cinema, o filme O último imperador (1987), de Bernardo Bertolucci, retrata o infante real Puyi ganhando um grilo, retirado de dentro de uma caixinha própria para transportá-lo – uma cabacinha, com tampa provida de respiradores –, para deleite e companhia de Sua Majestade.

Cigarras também tiveram seu lugar como animais de estimação, mas os grilos sempre foram os insetos cantores preferidos dos chineses. Aliás, eles não cantam, propriamente, como se costuma dizer à maneira popular: o que acontece é que os machos adultos da espécie emitem um som forte, resultado da fricção das asas uma na outra, com a finalidade principal de delimitar território ou de atrair a fêmea para o acasalamento.

Comércio e criação

No princípio uma prática restrita à aristocracia, mais tarde o hábito de manter grilos em cativeiro foi copiado pela gente do povo, e tornou-se comum ter esse bicho em gaiolas ou caixinhas, para admirar seus hábitos e ouvir seu canto. As brigas de grilo, segundo reza a tradição, vieram depois, já na dinastia Song (960-1279), e logo o esporte ganhou popularidade. As competições de “canto de grilo” pouco a pouco também lograram seu espaço.

Muitos entusiastas dos grilos reúnem-se nos mercados de animais. Lá, em geral, os grilos mais comuns são comercializados por cerca de R$ 10. Onívoros, eles podem ser alimentados diariamente com verduras e frutas em decomposição, especialmente maçãs. Pequenos insetos ou larvas também servem de comida para os bichinhos. O restante de sua dieta pode incluir farelo de trigo, castanhas moídas, feijão amarelo, pedaços de peixe, arroz, sementes de lótus e ervas.

O ambiente mais adequado para reproduzir grilos são os terrários, com pelo menos uma pequena camada de substrato, uma toca onde o animal se abriga e um lugar para postura de ovos. Do ovo, passando pela larva até chegar ao inseto, vão-se um ou dois meses. O indivíduo adulto vive por volta de um mês.

Os consumidores mais aficcionados buscam os melhores fornecedores, regateando enquanto inspecionam os cilindros onde os bichos estão acomodados para a venda. Os potenciais compradores examinam cuidadosamente o que mais lhes interessa. Admiradores de grilos cantores tentam ouvir seu trilar quando o vendedor procura estimular o inseto a cantar, com um pequeno instrumento que imita o som de um grilo rival; já os interessados em grilos lutadores verificam as pernas e os maxilares dos animais, em busca de um exemplar robusto.

Os grilos da província de Shandong, em especial os do remoto condado de Ningjin, são os gladiadores mais procurados e, por isso, muito caçados na temporada, que vai principalmente de agosto a setembro. Quem consegue um exemplar desses costuma adquirir um inseto com a cabeça e o pescoço grandes, o instinto talhado para a luta e a reputação de destemido, resistente, feroz e persistente lutador.

Cultura do grilo

Além de serem considerados símbolos de sorte e virtude, também existe, enfim, toda uma cultura em torno da criação de grilos, que se reflete na tradição oral, na pintura, na música e na literatura.

Desde há muito tempo existem na China tratados sobre a criação e competição de grilos, além de provérbios relacionados ao tema. O livro Er Ya, uma enciclopédia lexicográfica de alguns séculos antes da era cristã, já trazia ilustrações de grilos, e podia ser considerada uma primeira abordagem taxonômica e biológica chinesa sobre esse bicho. Mas o que pode ser o mais antigo tratado de criação e um verdadeiro manual das rinhas de grilo em nossa era é o Tsu Chi King (O livro dos grilos), escrito na primeira metade do século 13 por Jia Sidao, um ministro de estado apaixonado pelo tema.

Há também inúmeras lendas associadas ao assunto, como histórias de grilos que valiam fortunas ou que foram o núcleo de grandes tragédias ou de grande felicidade. Existem ainda, por exemplo, obras e sites que listam critérios para selecionar grilos bons de luta, com uma relação sobre os locais onde encontrá-los, o diagnóstico e o tratamento de doenças, as maneiras de usar as fêmeas, os melhores alimentos e remédios etc.

Animais de companhia

A sociedade chinesa primitiva tinha caráter marcadamente agrário e, como tal, era muito atenta ao mundo natural, de onde retirava seu alimento, suas referências e expressões. Marcando uma etapa desse universo, o calendário chinês tem um dos ciclos ligado à época em que os insetos começam a reaparecer depois do frio mais rigoroso do inverno: é o 惊蛰 Jīngzhé (“despertar dos insetos”).

A tradição reporta como os grilos pularam da percepção campesina e ganharam os palácios: as concubinas do imperador, a fim de encontrarem consolo e distração em noites solitárias, gostavam de caçar grilos e colocá-los em caixinhas ou gaiolas, construídas com graça e luxo, com o objetivo de trazer para perto de sua cabeceira o canto do inseto para embalar seu sono. Essa narrativa funcionou na cultura chinesa como uma espécie de metáfora da própria vida das concubinas, trancafiadas num palácio associado a uma gaiola dourada, mas com uma existência emocional pobre junto ao imperador. O canto dos grilos seria uma espécie de lamento de tristeza e solidão.

Briga de grilo

Desde que Jia Sidao escreveu o seu guia de instruções para o esporte, as brigas de grilo só conheceram declínio, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 1960. Porém, nos últimos tempos, embora ainda dominadas por homens mais velhos, as rinhas voltaram a crescer em interesse e têm sido revitalizadas pela geração mais jovem, ansiosa por abraçar costumes genuinamente chineses.

As brigas de grilo ganharam associações voltadas para a organização de campeonatos, com juízes e prêmios. Nos torneios mais importantes, os combates são transmitidos num telão, para que um grande número de fãs possa assistir numa sala à parte.

Existem até categorias de peso para deixar os insetos lutadores em pé de igualdade na luta. Os grilos são pesados em balanças de alta precisão, classificados em categorias por peso e divididos em grupos mais ou menos uniformes, dentro dos quais se enfrentam num campeonato de alcance nacional.

Grilos bons de briga devem ter cabeça grande, pescoço grosso, asas quadradas e pernas fortes. Cada proprietário guarda seus macetes a sete chaves. O segredo para criar um bom lutador pode estar no treino, numa cópula em véspera de luta ou em uma dieta específica que estimule a agressividade.

A temporada de rinhas de grilo ocorre no outono. Para a briga, os grilos são colocados em pequenos recipientes de plástico ou acrílico, provocados com uma vareta, um pedaço de palha ou um bambu agitado contra suas antenas, até que se predisponham a lutar. Perde aquele que se retira primeiro do combate.

A arte das gaiolas

A necessidade de transportar ou o desejo de manter esses animais em cativeiro deu origem a uma arte muito especial, que vem criando utensílios imaginativos e originais. Gaiolinhas, vasilhas, cestinhas, caixinhas, jarros, potes ou tubos desde sempre são feitos para os grilos nos mais diversos materiais: cabaça, ouro, jade, marfim, osso ou chifre animal, latão, madeira, palha, ratã, fibra vegetal, bambu, cerâmica, porcelana ou plástico.

Algumas peças, dada sua originalidade ou antiguidade, compõem até o acervo de museus, como o Field Museum of Natural History, de Chicago (veja link no final desta matéria).

Os recipientes para transporte ou moradia de grilos são decorados com moldes, entalhes, incrustações, pinturas ou pirografias de animais com simbolismo auspicioso, como dragões, morcegos, leões, cães, fênix e flores de lótus. Em sites de compra pela internet, é possível adquirir uma infinidade de “crickets cages”, ou gaiolas de grilos.

A arte de construir as moradias para os grilos chegou a tal requinte, que muitos recipientes também passaram a ser projetados não somente como abrigo para o inseto – e feitos a propósito para cada espécie e suas características, como dimensões do corpo, tamanho do salto etc. –, mas também como uma caixa acústica apropriada para ampliar o estrilar do bicho.

Talvez o ápice do requinte sejam os frutos do cabaceiro (Legenaria vulgaris), moldados ainda na planta em formação, a fim de que cresçam dentro de uma fôrma, a qual vai imprimindo um formato ou um relevo na superfície da cabaça conforme ela cresce.

Não é difícil adivinhar que, antigamente, as cabaças assim moldadas eram símbolo de distinção social. Mas até hoje, na China, ser distinguido com a deferência do pouso de um grilo em seu corpo continua sinal de boa fortuna.