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Por Alessandra Scangarelli Brites

O cinema da China vem aos poucos ampliando seu público em países como o Brasil, onde ainda costumam soar familiares apenas os nomes de uns poucos diretores premiados. Assim, é importante lembrar a enorme variedade da cinematografia chinesa. Para quem quer começar a descobri-la, sugerimos aqui três títulos bem diferentes.

O primeiro adeus (2018)

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Entre as questões “universais”, recorrentes em diversas obras da literatura e do cinema mundial, está o processo de amadurecimento. As circunstâncias únicas que envolvem esse processo no plano individual se articulam com o contexto social em que a experiência se dá.

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É preciso ter isso em vista para melhor compreender a mensagem que a diretora Wang Lina quis passar com O primeiro adeus, seu longa de estreia. Em um pequeno vilarejo no Noroeste da China habitado pela etnia uigur, o jovem protagonista, Isa, trabalha na plantação dos pais, vai à escola e brinca com os amigos nas horas vagas. Essa rotina é abalada quando a mãe do garoto, doente, tem de ir para um asilo; ao mesmo tempo, Isa fica sabendo que Kalbinur, sua melhor amiga, será transferida para outra escola.

O enredo nos conduz pelo cotidiano de três crianças uigures – Isa, Kalibur e o irmão mais novo da menina – e suas famílias. Os cenários bucólicos servem à belíssima fotografia deste filme que é praticamente um estudo antropológico audiovisual com traços autobiográficos. Wang, que também nasceu em Xinjiang, no vilarejo da história, diz que o filme é “uma peça poética” dedicada à sua terra natal.

A trama também aborda os problemas econômicos e sociais e, de forma bastante delicada, promove uma reflexão sobre o encontro da China mais desenvolvida e falante do mandarim com a China profunda de Xinjiang, que fala uigur e começa a absorver o idioma oficial do país. Como promover o progresso sem necessariamente perder as tradições?

Destaque para a interpretação intensa e ao mesmo tempo leve das três crianças – atores amadores –, cujas complexidade e simplicidade são integralmente captadas pelas lentes de Wang. Finalmente, a já mencionada fotografia rendeu a honraria de Urso de Cristal no Festival de Berlim e o prêmio Futuro da Ásia no Festival de Tóquio.

 

Peixe Grande & Begônia (2016)

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O cinema de animação ainda não é, em geral, muito valorizado pelo público adulto. São poucos os que compreendem o poder do gênero, em que a imaginação não tem limites e cria verdadeiras obras de arte repletas de significado e muito divertidas. Peixe Grande & Begônia, dirigido por Liang Xuan e Chun Zhang, é um bom exemplo e já conta com fãs ao redor do mundo.

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Em um reino místico, povoado por seres mágicos que controlam as almas e as leis naturais do mundo humano, os jovens passam por um ritual de iniciação ao completar 16 anos: na forma de golfinhos vermelhos, são transportados para o mundo humano. O público irá acompanhar a jornada da adolescente Chun, a narradora, durante esse rito iniciático em que não faltarão aventuras e perigos.

Já em forma de golfinho, Chun descobre um garoto humano que vive à beira-mar e reverencia os animais marinhos. Durante uma tempestade, Chun enrosca-se acidentalmente em uma rede de pesca, e o menino morre afogado ao tentar salvá-la. Cheia de culpa, ela retorna ao reino mágico e tenta recuperar a alma do garoto e devolvê-lo ao mundo dos homens. O menino, porém, volta à vida na forma de um peixinho e necessitará ser cuidado por Chun até a idade adulta. Com o tempo, a situação começa a influenciar o equilíbrio do mundo mágico, provocando a ira dos habitantes. Chun terá de contar com amigos e familiares para enfrentar as adversidades que atingem a todos.

Apesar da trama complexa e cheia de simbolismo, Peixe Grande & Begonia traz elementos lúdicos compreensíveis em qualquer idade, e o mesmo se pode dizer das mensagens contidas nos diálogos das personagens. Entre os temas que a animação aborda, estão a dificuldade de aceitar a morte, as origens do homem, a busca pela redenção, as consequências de nossas escolhas, o amor incondicional, o poder da amizade e da solidariedade.

O estilo do traço remete ao do clássico A viagem de Chihiro (2001), de Hayao Miyazaki. A produção traz diversos preceitos do taoismo e da mitologia chinesa e é uma ótima opção para todos os públicos, disponível na plataforma Netflix.

 

A bala desaparecida (2012)

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Este filme policial tem toques de aventura, suspense, ação, humor e até de fantasia – traço em comum com filmes de outras cinematografias, como a coprodução Hollywood/Inglaterra Sherlock Holmes (2009), dirigido por Guy Ritchie. Mas o filme de Lo Chi-Leung, disponível na Netflix, tem suas peculiaridades, em especial na dinâmica apresentada pela dupla formada pelo inspetor Song Donglu e o capitão Guo Zhui. O enredo é bem construído e traz novidades, principalmente quanto ao final.

A história começa nos anos 1920, quando Ding, dono de uma fábrica de munições e conhecido por intimidar seus empregados, acusa uma de suas trabalhadoras de roubo, forçando-a a participar de uma roleta-russa em que a moça acaba perdendo a vida.

A morte da jovem é logo vinculada a uma maldição sobre uma “bala-fantasma”, que retornará para tirar a vida de outros, em um ato de vingança. Assim, tem início uma sucessão de mortes, sem que as balas dos crimes sejam jamais encontradas. Song Donglu, um detetive excêntrico e recém-promovido, é convocado pelo chefe de polícia para ajudar Guo Zhui, um talentoso e rápido atirador. O novato Xiaowu completa o time na investigação dos peculiares assassinatos.

A produção guarda semelhanças com os filmes de gângster ambientados nos anos 1920, mas é possível perceber também a inspiração em grupos criminosos reais dessa época no Ocidente e suas figuras públicas emblemáticas. Ding, por exemplo, lembra Al Capone.

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O capitão Guo Zhui mostra grande capacidade intelectual para desenvolver cenários possíveis para a solução dos crimes, mas algo de misterioso em sua personalidade parece querer manifestar-se. A aproximação do inspetor com Fu Yuan, acusada de matar o próprio marido, e o relacionamento do capitão com uma vidente são peças-chave para o desfecho da trama.

Com elementos de ação, análises teóricas sobre os crimes e doses de ironia e sarcasmo, A bala desaparecida é um filme divertido, que prende a atenção e faz o espectador também criar suas teorias.