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Por Thiago Minami

Dentre os gêneros literários, a ficção científica é um dos que mais se vinculam ao Ocidente, desde suas raízes. Entre os seus pais estão o francês Jules Verne, autor de Vinte mil léguas submarinas (1870), a inglesa Mary Shelley, criadora de Frankenstein (1818), e o também inglês H.G. Wells, que escreveu o clássico A máquina do tempo (1895). O surgimento do gênero coincide com os acelerados avanços tecnológicos em curso na Europa da Revolução Industrial, quando as pessoas se questionavam sobre o que viria a seguir.

Foi um clássico daqueles tempos, Viagem ao centro da Terra, escrito em 1864 por Verne, que caiu nas mãos do garotinho chinês Liu Cixin, hoje com 54 anos. O encontro determinou os rumos profissionais de Liu Cixin, que decidiu se tornar um escritor de ficção científica. Foi só nos anos 1970 que as traduções de livros ocidentais do gênero chegaram à China, motivando uma onda de obras locais na década de 1980, algumas com tiragem na casa dos milhões.

Liu Cixin publicou seu primeiro romance, Os tijolos do diabo, em 2002. Foram mais duas publicações até finalmente chegar ao sucesso, em 2006, com O problema dos Três Corpos, primeiro volume de uma trilogia. Os 500 mil exemplares vendidos até 2014 na China atraíram a atenção do mercado dos Estados Unidos, e uma tradução para o inglês foi lançada em 2014. Um ano depois, venceu o prêmio Hugo de melhor romance, o mais aclamado no mundo da ficção científica ocidental.

“Por quase 30 anos eu permaneci no mesmo departamento [da empresa], fazendo o mesmo trabalho, o que era raro para as pessoas da minha idade. Escolhi esse caminho porque me permitia trabalhar com ficção. Na juventude, planejei me formar como engenheiro para lidar com tecnologia enquanto, depois do expediente, escrevia ficção científica. Me dei conta de que, se tivesse sorte, poderia me tornar um escritor em tempo integral”, o autor disse a um jornal inglês.

O problema dos Três Corpos tira seu título de uma questão antiga da área de mecânica celeste. Seus protagonistas são Ye Wenjie e Wang Miao, dois cientistas num futuro próximo. Ye é uma astrofísica perseguida pela execução de seu pai, acusado de ter espalhado a ideia contrarrevolucionária da teoria da relatividade. Wang é um engenheiro especializado em nanotecnologia que foi sugado por um jogo de realidade virtual chamado Três Corpos. A narrativa amarra três enredos que se passam em tempos distintos: em 1971, durante a Revolução Cultural; em meados da década de 2000 e no futuro, em um planeta distante situado num sistema solar com três sóis. Entre os temas tratados está um clássico do gênero: o encontro com extraterrestres. O clímax da obra se dá quando é relevada uma conspiração interplanetária que ameaça os seres humanos e os fundamentos da Física. Uma adaptação cinematográfica de O problema dos Três Corpos está sendo produzida na China.

Mãe, economista e escritora

Em 2016, um ano depois do Hugo para Liu Cixin, a conterrânea Hao Jingfang, de 33 anos, levou o prêmio de melhor novela. Pequim dobrável (北京折叠) lança um olhar crítico sobre o futuro da capital chinesa, em que a segregação social é corroborada pelo avanço tecnológico. Lao Dao, o protagonista, é um lixeiro que vive para pagar os valores altíssimos da concorrida educação infantil– um dilema que muitos pais chineses enfrentam na atualidade. Como pertence à desfavorecida terceira classe, de 50 milhões de pessoas, Lao Dao tem direito a permanecer acordado apenas oito horas por dia, só durante a noite; ao amanhecer, a metrópole se transforma para abrir espaço para a segunda classe, de 25 milhões de pessoas, que contam com 16 horas diárias. A primeira classe, mais poderosa, com 5 milhões de pessoas, pode aproveitar 24 horas. O título deve-se à forma como a cidade se dobra e desdobra para dar lugar às paisagens pertinentes às diferentes classes sociais – na dos ricos, as avenidas são largas, arborizadas e quase não há edifícios. A dos pobres é atolada de pessoas e comida barata à venda na rua.

O trânsito entre as distintas Pequins é vetado à classe mais baixa. Lao Dao recebe uma proposta de trabalho ilegal: entregar a carta de amor de um integrante da segunda classe a uma moça da primeira classe. Hao Jingfang costura com precisão a situação social da personagem a dilemas pessoais próximos aos leitores que, segundo a autora, derivam de seu próprio cotidiano. Ela enfrenta uma rotina dura para conseguir dedicar duas horárias diárias à literatura, das cinco às sete da manhã. Em seguida inicia seu trabalho como pesquisadora da Fundação de Pesquisa em Desenvolvimento da China e, após o expediente, cuida da filha em idade escolar. Formada em Física e doutora em Economia, Hao Jingfang utiliza-se de seus conhecimentos para conferir realismo aos assuntos tratados na narrativa – em um trecho de Pequim dobrável, Lao Dao acompanha uma discussão entre poderosos sobre a substituição da classe proletária por robôs, apoiada em argumentos baseados em macroeconomia.

Ainda que possam se relacionar a qualquer metrópole mundial, os temas do conto encontram respaldo principalmente nos países ditos “em desenvolvimento”, que sofrem de explosão demográfica e desigualdades sociais – a Pequim ficcional poderia ser São Paulo, Mumbai ou Lagos. Considerando-se que nossas referências de ficção científica normalmente partem de países anglófonos, trata-se de uma perspectiva cheia de frescor dentro do gênero. Em breve, Pequim dobrável deve se tornar filme nos Estados Unidos, ao que tudo indica numa cidade não identificada e com um ator ocidental no papel do protagonista.

200 títulos por ano

Antes de chegar ao exterior, os autores chineses costumam passar pelo crivo do Prêmio Galáxia, de âmbito nacional, criado pelos pioneiros da revista Mundo da Ficção Científica, publicada na década de 1980. Entre os vencedores destacam-se nomes como o de Han Song, nunca traduzido no Ocidente. Jornalista da Agência de Notícias Xinhua, o escritor usa a ficção científica para expressar preocupações nacionalistas, relacionadas à China atual. Uma de suas obras recentes, Metrô (2010), conta a história de um grupo de exploradores chineses que cresceu fora da Terra, após seus ancestrais terem sido expulsos do planeta por forças estrangeiras. Eles retornam para procurar as reminiscências de sua cultura e aterrissam num túnel do metrô de Pequim, dentro de um trem que corre em direção ao nada em alta velocidade. Trata-se, acima de tudo, de uma crítica ao desenvolvimento hiperveloz, que produz mudanças irrevogáveis nas vidas das pessoas.

Entre os autores que preferem a ficção mais “imaginativa” (se assim se pode dizer de um gênero definido por boas doses de criatividade), está He Xi, pseudônimo para ocultar uma identidade nunca revelada. Um de seus trabalhos mais recentes, Doomsyear, vai tão longe quanto Liu Cixin em descrever desastres de proporções interplanetárias.

O rol de nomes na China voltados à ficção científica tem crescido nos últimos anos. Em 2012, foram 200 títulos lançados. O interesse local pelo gênero pode ser explicado de mais de uma forma. Em entrevista a um jornal americano, Liu Cixin afirmou que se deve, em parte, à rápida modernização do país, o que deixa a população de olhos no que pode vir a seguir – mais ou menos como ocorria na Europa de Júlio Verne e H.G. Wells ou, mais recentemente, com a chegada do homem ao espaço, que motivou uma série de obras como as americanas Star Wars e Star Trek.

Em geral, os temas chineses não diferem tanto dos ocidentais – exploração do espaço, contato com extraterrestes, cidades futuristas e desastres ambientais. “Há mais diversidade nos últimos anos. Alguns escrevem sobre vidas em família, outros sobre história antiga. Tem até história sobre o rock”, disse Hao Jingfang a um site americano de notícias. Ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, a nação asiática oferece seu tempero próprio, tanto no conteúdo quanto na forma das narrativas. Vale torcer para que, nos próximos anos, os títulos cheguem à língua portuguesa – O problema dos Três Corpos já foi lançado em nosso idioma, pela editora brasileira Suma, selo da Companhia das Letras voltado ao público geek.